25 julho 2016

O capitão saíu para almoçar e os marinheiros tomaram o navio - Charles Bukowski


“Acho que as pessoas que escrevem diários e tiram apontamentos sobre aquilo que pensam são uns idiotas. Só estou a fazer isto porque alguém me sugeriu. Como veêm, nem sequer sou um idiota original. O que torna tudo mais fácil. É só deixar correr. Como um cagalhão quente a descer por uma colina.”.

Charles Bukowski.
Um dos escritores mais míticos e profícuos da geração Beat e dos poucos que sobreviveu nas décadas seguintes com a sanidade suficiente para contar a história.
Entre cerca de meia centena de publicações (prosa e poesia), guiões para cinema e artigos diversos, manteve uma influência constante sobre gerações de escritores, que infrutiferamente o emularam ou se “inspiraram”/“homenagearam” a sua obra e estilo inconfundível.
O capitão saíu para almoçar e os marinheiros tomaram o navio (Alfaguara, 2016) colige alguns registos diarísticos referentes ao período entre 1991 e 1993, os anos anteriores à sua morte em 1994, vítima de leucemia.
Acima de tudo, Bukowski apresenta-se como alguém para quem a escrita é o Santo Graal, a sua religião, que o mantém vivo, activo e produtivo.
A sua rotina diária passa obrigatoriamente pela rotina matinal do jogo, das apostas nas corridas de cavalos, entre dias melhores (em que ganha qualquer coisa) e piores, onde personagens inusitadas, como o Louco dos Gritos ou o Olhos Zangados, se intrometem no seu sossego misantropo, de apostas cuidadosas, de tal forma marcado pela pobreza do passado que não consegue ter perdas ou ganhos de monta.
À noite, frente ao computador, aproveita a companhia da música clássica que toca na rádio (a única que suporta e colecciona como uma colecção de cromos de basebol), para pôr a escrita em dia, entre reflexões avulsas, desabafos e algumas tiradas a que, com a mesma satisfação dos tempos áureos, atribui o brilhantismo que merecem.

Sobre a Vida

Esqueçam a humildade do escritor dedicado ao seu ofício ou a análise detalhada do processo de escrita, trabalhado à exaustão durante anos de dedicação à causa. Aqui não há tangas, presunção ou qualquer traço de hipocrisia.
As palavras são-lhe familiares como o ar que respira e recusa-se ceder à facilidade de se repetir e se limitar a corresponder às expectativas, procurando a frase nova e escrevendo quase febrilmente (com as limitações naturais das suas provectas sete décadas), “numa dança com a morte” que insiste em comandar.
A Morte paira na sua mente e na sua Arte, como se adivinhasse a sua proximidade e a consciência apurada dela e de si, aguçam o seu mau génio e alertam-no para a sua finitude.
A velhice, que lhe rouba disponibilidade e acuidade, ainda o inspira a tentar a superação.

“Cada frase é um novo começo.”.

The Laughing Heart, por Tom Waits

Os pedidos inusitados dos fãs, que se introduzem na sua casa sob os pretextos e argumentos mais surreais, como uma peça jornalística ou um ensaio fotográfico, roubam-lhe tempo para a sua “oração” diária, mas divertem-no de sobremaneira, pelo absurdo da fama e pelo retrato óbvio de uma certa obssessão pelo contacto com os “famosos” que representam, como se o talento e a visibilidade mediática se pudessem transmitir por osmose.
O pessimismo reina na sua perspectiva do Mundo, com o cinismo e a ironia que sempre o acompanharam. As reminiscências do passado de glória e pura fanfarronice (embora mergulhado na penúria e na instabilidade laboral constante), são frequentes e trazem consigo a eloquência que só as memórias bem regadas a álcool e outros aditivos são ainda capazes de espoletar.

“O desafio e a glória. A electricidade. Foda-se, a vida era boa, a vida era divertida. Éramos todos grandes homens, ninguém se metia connosco. E para dizer a verdade, sabia muito bem. Álcool e umas quecas. E muitos bares, bares cheios de gente.”

Apesar do ambiente onde a sua escrita floresceu, Bukowski soube sempre manter-se à parte da literatura mais “engagé” com os tempos conturbados que os EUA viviam, principalmente na década de 60 do século passado. A sua opção foi sempre “brincar com as palavras”, mas também urdir um manto protector da realidade, com a qual não se queria misturar.

Sobre a Escrita e a Morte

“Eu não andava à procura de justiça nem de lógica. Nunca andei. Talvez seja por isso que nunca escrevi como protesto social. (...) É impossível fazer uma coisa boa a partir de algo que não existe. Aqueles tipos queriam que eu mostrasse medo, (...) Mas a única coisa que eu sentia era nojo.”.

Os seus dias são animados pelas pequenas epifanias: uma nova sinfonia que nunca escutou, uma inesperada vitória na pista de corridas ou uma tirada certeira nos escritos nocturnos.
Nos bons momentos, para combater a amargura dizia “Quero compreender a vida, a felicidade da vida”. Mas logo em seguida, regressa tranquilamente ao seu lugar seguro: o pessimismo endémico e trocista. “caminhamos em direcção à miragem, desperdiçando a nossa vida como toda a gente.”.
Embora consciente do seu valor, encara a escrita e os seus colegas de ofício com as devidas distâncias e até algum desdém. O seu despretensiosismo crónico e a sua atenção ao que o rodeia impedem-no de sacralizar a escrita, que apelida de irrelevante, e os escritores, verdadeiros “intrujões” pedantes, vivendo frequentemente de uma falsa imagem de liberdade e libertinagem, financiada nos bastidores por rendimentos de “heranças” obscuras  e mães extremosas de bolsos fundos.

“Somos feitos de papel. Existimos graças à sorte, no meio de percentagens, temporariamente. E isso é a parte melhor e a parte pior,  a questão temporal. E não há nada a fazer. (...) Podemos mudar a nossa aceitação, mas talvez isso também seja errado. Se calhar pensamos demais. É preciso sentir mais, pensar menos.”

Como qualquer ser pensante, o americano contradiz-se constantemente. Mas opta por avançar e evitar ceder qualquer espécie de margem ao imobilismo e a inércia, para que tanto a vida como a escrita mantenham o tónus e a imprevisibilidade, deixando o instinto guiar a inspiração. Se (ainda) o consegue ou não, isso já é outra história. Mas tal intento, já depois dos 70 anos, é refrescante e devolve-nos alguma esperança no que existe para além do mofo a que tresanda tanta da literatura e da narrativa biográfica, quase hagiológica, que ainda nos impõem como verdadeira e cool, para aumentar as vendas dos mesmos livros de sempre, reeditados periodicamente, com títulos curtos e capas novas, talvez amarelas, quem sabe.

      “É preciso chafurfar na lama de vez em quando. (...) Depois de ter passado pelo pior,      
       conseguimos escrever de maneira mais feliz e libertadora.”

Cena de "Factotum", baseado no livro homónimo de 
Bukowski,onde se ouve o fabuloso poema "Roll the Dice".

Numa altura em que as referências literárias lhe são já indiferentes, resta-lhe o consolo da rotina - “um lugar onde ir, uma coisa para fazer” - para esquecer ou superar o medo da solidão total e derradeira, da “morte a morder-me os calcanhares”.

“Agora a minha maior influência sou eu”;  “Era bem melhor quando era capaz de imaginar a grandeza dos outros, mesmo quando ela nem sempre existisse”.

Charles Bukowski, o escritor, provou, sem sombra de dúvida, que o mundano, em todo o seu esplendor, pode ser tão literário e poético como qualquer obra do cânone ocidental.
Charles Bukowski, o homem, despe-se e despede-se neste pequeno opúsculo, agarrando-se às derradeiras fímbrias de uma vida e obra já míticas, com a ironia seca, a linguagem livre de preconceitos e o humor deprecatório que fizeram, fazem e farão por muitas décadas as delícias dos leitores.

Nirvana

Não é um epitáfio per se, mas uma pérola inesperada que nos relembra porque ainda vale a pena viver mais, viver melhor, falhar, lutar, vacilar, lutar melhor, falhar outra vez, perder e talvez, com sorte e suor e amor e dedicação ao que nos é sagrado, vencer o inevitável Nada final. (perdão Beckett, não é plágio, é inspiração...).

“Que se lixem os deuses, que se lixe este jogo.”

Charles Bukowski venceu, por K.O..
Game Over.

Uma pequena conversa, sem censura

 “Está uma porta aberta algures e estou aqui a morrer de frio, mas não me levanto para a fechar porque as palavras estão a fluir e isso dá-me demasiado prazer para conseguir parar. Mas, porra, é o que vou mesmo fazer. Vou levantar-me, fechar a porta e mijar.
Pronto, já está. Já fiz as duas coisas. Até vesti uma camisola. O velho escritor veste uma camisola, senta-se, olha para o ecrã do computador e escreve sobre a vida. Haverá coisa mais sagrada do que esta? E, meu Deus, já pensaram na quantidade de mijo que um homem produz ao longo da vida? Quanto come e quanto caga? Toneladas. É horrível. O melhor é morrermos e sairmos depressa daqui, estamos a contaminar tudo com as coisas que expelimos. Todos, nem as bailarinas escapam. (...)
Deve ser estranho viver comigo. Para mim é.
Boa noite.”.



19 julho 2016

M Train - Patti Smith


“Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma”.
Coisa nenhuma, para o comum dos mortais, é uma lista de compras ou um recado no frigorífico. Para escritores como Patti Smith, banalidades tornam-se singularidades, com a mesma dignidade narrativa que a morte sentida de uma personagem querida ou de uma surpresa no enredo que o vire do avesso.
Depois do êxito inesperado do fantástico Just Kids (Apenas Miúdos, Quetzal, 2011), M Train (Quetzal, 2016) é o regresso de Patti Smith à narrativa. Ao apuro da linguagem, junta-se uma evocação onírica do seu passado, com enfoque na sua vida familiar e quotidiana, num tom profundamente pessoal.
Numa entrevista recente, confessava a propósito de M Train: “O Just Kids aconteceu porque o Robert Mapplethorpe tinha-me pedido para o escrever pouco antes de morrer. (...) Foi muito planeado. E decidi que o seguinte não seria assim, aliás, seria o oposto. Sem plano, sem história, sem responsabilidade a não ser para comigo mesma. Escrevi o que me vinha à ideia. Daí ter dado o nome M Train, que quer mesmo dizer algo como “o comboio da mente”. Ia para o meu café favorito, todas as manhãs, e deixava que as ideias caíssem no papel, só isso.”
É um livro corajoso, pela proximidade que, aparentemente sem qualquer esforço, tece connosco, os leitores, os fãs, os bibliófilos em busca constante de novas referências e pistas para melhor lermos e nos lermos através da alma generosa de quem se deixa nas páginas partilhadas.
M Train é um longo caderno de apontamentos e notas dispersas, entrecortadas por poemas criados impromptu, trechos literários alheios e inspiradores, discursos rabiscados à pressa em guardanapos, instantâneos da vida e de locais significativos, diários de viagens sem plano antecipado.
A sua estrutura assenta numa rosa dos ventos temática. A Norte encontramos os sonhos, alicerces da sua vida e da sua escrita. Os livros que a acompanham, física e espiritualmente estão a Sul, a Este os cafés que frequenta, perto de casa e Mundo fora, onde cria e se encontra e a Oeste, por fim, as fotos, essenciais ao livro, para fazer corresponder uma referência imagética a passagens centrais.

Fred Smith, o marido de Patti, no dia do
seu primeiro aniversário de casamento
Noutras direcções, juntamos a estes rumos fundamentais as memórias e evocações (com especial destaque para o seu marido Fred Sonic Smith, a quem dedica o livro, e o seu irmão Todd, ambos falecidos cedo demais), as viagens (sempre enriquecedoras e inesperadas, inspiradoras para ela e, por transferência, para nós), os objectos (repletos de simbolismo e encerrando em si pessoas, épocas, lugares) e a escrita, o processo central de criação de um texto novo, capaz de sintetizar pensamentos numa ideia que faça sentido.

“Os escritores e os seus livros. Não posso partir do princípio que o leitor esteja familiarizado com todos eles, mas acabará por ficar familiarizado com os meus? Só posso esperar que sim, pois ofereço o meu mundo numa bandeja repleta de alusões várias.”   

Em forma de recompensa pela paciência do leitor, espectador das suas derivas mentais razoavelmente desordenadas, no final de cada capítulo somos brindados com frases inspiradas, que fazem todo o caminho percorrido até ali valer a pena.
Um desses momentos felizes, condensa o seu sentido do Tempo e da Vida, da literatura e do próprio M Train.

“Tenho vivido dentro do meu próprio livro. Um livro que nunca planeei escrever e em que vou registando o movimento do tempo (...) Revivi momentos que foram perfeitos pela inevitabilidade da sua certeza. O Fred a abotoar a camisa de cor caqui que costumava usar nas aulas de voo. Os pombos a regressarem ao ninho no nosso alpendre. A nossa filha Jesse à minha frente a estender-me os braços.
- Oh, mãezinha, às vezes sinto-me como se fosse uma árvore nova.
Queremos coisas que não podemos ter.Procuramos recuperar um momento, um som, uma sensação. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver os meus filhos enquanto crianças. De mãos pequenas, de pés velozes. Tudo muda. O rapaz já crescido, o pai morto, a filha mais alta do que eu a chorar devido a um sonho mau. Por favor, fiquem para sempre, digo eu às coisas que conheço. Não se vão embora. Não cresçam.”

Com Paul Bowles, em Tânger
Ao contrário de Just Kids, onde a escritora disserta, com alguma ingenuidade e esperança, sobre o passado, aqui o Tempo impõe-se de outra forma. Patti tem pressa em aproveitar a vida que ainda lhe resta, consciente e conformada com o facto de que já foi mais longa. Onde antes procurava um rumo para a sua existência, com a urgência de quem sentia ter uma voz única a partilhar, hoje, menos ousada e mais discreta, essa busca, longe de esmorecer, adaptou-se à realidade imposta pelo peso dos dias e das contrariedades (a que raramente se refere, mas se subentende em cada trecho) .
Longe de ser pessimista, o realismo aqui é escapista, com um pé na fantasia e outro nos nadas do quotidiano, aparente lixo literário, reciclado com o carinho de quem os vive como se de uma grande aventura se tratasse.
“Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma”, mas todos os grandes autores o fizeram em determinada altura. Como sempre na sua carreira, Patti Smith contraria convenções e, com talento e sensibilidade, empresta-lhe a claridade dos dias soalheiros e a densidade das emoções mais recônditas.
Legítima herdeira e testemunha do melhor que o ócio e a solidão (acompanhada) podem trazer a uma mente criativa e inquieta, a americana partilha a sua intimidade, entre o vício do café e das séries policiais, os seus gatos, as experiências mundanas do quotidiano, numa linguagem propositadamente porosa e requintada, a que junta um imaginário onde reverbera em cada sílaba o seu profundo conhecimento literário. E os livros, sempre os livros, e os seus autores, Villa-Lobos, Chatwin, Bowles, Sebald ou Aira, que invoca incessantemente, como personagens que fez seus e recusa deixar fora do alcance da mão e da mente.
Embarcamos no combóio M, da memória, onde somos convidados a partilhar a viagem e com toda a naturalidade, descobrimos como se alimentam as labaredas do Amor e do Saber e, no processo, nos encontramos no Outro e nas pequenas vicissitudes diárias que tornam cada novo dia numa aventura em potência.
Confiante nas suas capacidades, Patti deixa esquecidos os maneirismos de estrela rock e abraça a sua individualidade, os seus gostos peculiares, a sua mundividência, para com eles tecer o seu retrato da artista enquanto anciã, descrevendo a sua viagem por este mundo em mudança, onde o Tempo se transfigura, entre relógios sem ponteiros e viagens repentinas, saltando décadas e ligando eventos remotos, com o espírito livre que sempre alimentou.

O Café ´Ino, que frequentou

O seu tempo presente vive de tempos idos que ainda são os seus, dolentes e contemplativos, no seu palácio da memória, na sua extensa biblioteca, na galeria de cafés que habita e nos túmulos para onde se dirige em constante peregrinação.
A consciência da Morte e o desejo de mais vida.
Uma fantasia? Uma versão da realidade?

“Acredito na vida, que um dia todos nós iremos perder. (...) apercebi-me, muito recentemente, de que terei atravessado uma linha inconscientemente escondida na verdade da minha cronologia.”. “O meu lar é uma secretária. A amálgama de um sonho. O meu lar são os gatos, os meus livros e a minha obra nunca terminada. Todas as coisas perdidas que um dia poderão chamar por mim, os rostos dos meus filhos que um dia irão chamar por mim. Talvez não sejamos capazes de separar a realidade do sonho nem de recuperar um estímulo por demais desgastado, mas podemos insistir no nosso próprio sonho de vida e mantê-lo persistentemente intacto.”

Durante a leitura do seu livro, partilhámos sonhos e tempos.
Não é afinal disto que é feita a Literatura?

15 julho 2016

Entre Mim e o Mundo - Ta-Nehisi Coates


“Tu existes. Tu Importas. Tu tens valor. Tens todo o direito de usar um gorro, de ouvir música tão alta quanto quiseres. Tens todo o direito de seres tu. E ninguém deverá impedir-te de seres tu. Tens de ser tu. E nunca podes ter medo de seres tu.”


Visto o vídeo e lida a citação, peguem nos auriculares e carreguem no PLAY.
Esta playlist será a companhia ideal para a leitura do livro e, caso decidam arriscar, para a leitura deste pequeno apontamento sobre uma das grandes obras literárias dos anos mais recentes.



Imaginem nascer e crescer num país onde sabiam à partida, pelo vosso mais básico instinto e por toda a cultura que vos rodeava, que o tom de pele seria decisivo para a vossa sobrevivência ou a vossa morte. Foi nessa realidade que Ta-Nahisi Coates cresceu e tomou nas mãos o seu destino, recusando render-se às evidências que o apontavam como apenas mais um na estatística.
Escritor, jornalista, professor, escreveu “Entre Mim e o Mundo” (Ítaca, 2016) para tentar explicar ao filho adolescente o que significa ser negro nos EUA de hoje. A resposta não é fácil, feliz ou maniqueísta, separando o Mal e o Bem com a facilidade irresponsável do cinema americano que vende bilhetes.
Ser negro nos EUA é um perigo de morte e ele sentiu-o por diversas ocasiões, inclusive na presença do filho.

“Digo-te agora que a questão de saber como se deve viver dentro de um corpo negro (...) é a questão da minha vida, e descobri que a busca incitada por esta questão em última instância se responde a si mesma.”
“Quando aceitei tanto o caos da história como o facto do meu fim total, vi-me livre para finalmente considerar como querida viver – em particular como viver livremente neste corpo negro. É uma questão profunda, pois a América vê-se como obra de Deus, mas o corpo negro é a prova mais clara de que a América é obra dos homens.” “A questão não tem resposta, o que não a torna fútil. A maior recompensa desta interrogação constante, do confronto com a brutalidade do meu país, consiste em ter-me libertado de fantasmas e em ter-me fortalecido contra o terror puro da perda do corpo.”

Empatia. O ingrediente secreto das vidas e das literaturas que contam. Sobrevalorizada ou essencial à sobrevivência? Será ainda relevante na sociedade de hoje, sustentada por uma rede de relações artificialmente mediadas? E perante a sua ausência, valerá a pena sustentar as mentiras tantas vezes ditas, até que se tornem verdade? Valerá a pena continuar a lutar, pacifica e resilientemente, esperando que cesse a injustiça e o ataque ao que de mais fundamental existe na condição humana?
A resposta cabal de Ta-Nahisi Coates é N Ã O.
Natural da Baltimore escalpelizada na seminal série “The Wire”, o escritor serve-se da sua obra, súmula de registo biográfico e diarístico, a espaços jornalístico e intimista, para detalhar a origem desta dissidência face ao discurso conciliador, de resistência pacífica, preconizado por Martin Luther King, e a preferência pelo contemporâneo e iconoclasta Malcolm X.
A sua argumentação tem por base a sua existência, no que acaba por se traduzir num inortodoxo bildungsroman.
Seguindo a herança familiar que lhe foi inculcada por pais e avós, a descoberta e fortalecimento das suas bases identitárias e mundividência é feita através do questionamento constante.
Desde cedo, percebe que a formulação das perguntas e o caminho para o seu esclarecimento são infinitamente mais importantes e formativas do que as respostas. A sua evolução e dialéctica com o Mundo são sempre precedidas ou complementadas por este artifício, com as perguntas a crescerem em abrangência e profundidade, em paralelo com o seu auto e heteroconhecimento.

“Parecia-me agora essencial interrogar incessantemente as histórias que as escolas nos contavam. (...) Levei estas perguntas ao meu pai, que quase sempre se recusava a dar uma resposta e em vez disso me sugeria mais livros. A minha mãe e o meu pai estavam sempre a afastar-nos de respostas em segunda mão – mesmo daquelas em que eles próprios acreditavam. Não sei se alguma vez encontrei respostas minhas que fossem satisfatórias. Mas, de cada vez que as formulo, a pergunta torna-se mais refinada.”

Com uma infância e juventude presa entre as ruas e a escola, nunca confiou no formato institucional da educação que lhe era disponibilizada, nem quando chegou ao ensino superior na Universidade de Howard (a sua amada Meca) onde, apesar de ter encontrado uma casa, escapava às aulas para se perder na biblioteca e estudar aquilo que mais lhe interessava.

“Comecei a ver as ruas e as escolas como armas do mesmo monstro. Umas estavam investidas com o poder oficial do Estado, ao passo que as outras tinham a sua sanção implícita. Mas as armas de umas e de outras eram o medo e a violência. Falha nas ruas e os gangues apanhar-te-ão quando deres um passo em falso e reclamarão o teu corpo. Falha nas escolas e serás suspenso e enviado de volta para essas mesmas ruas, onde o teu corpo será reclamado”

Sobre o medo de ser negro nos EUA

A natureza profundamente pessimista (realista, dirão alguns), contenciosa e insatisfeita do seu discurso narrativo, paradoxalmente transforma “Entre Mim e o Mundo” numa obra de improvável cariz filosófico, no sentido mais clássico do conceito. A maiêutica que Sócrates cunhou e Platão eternizou na palavra escrita, surgem aqui como fundamentais.
A digressão dialógica e argumentativa em forma de questionamento, sem dar a resposta cabal ao problema inicialmente formulado, supera-o e por vezes subverte-o, convertendo-o em mero pretexto para debater o que de essencial oculta a sua particularidade.
Embora “Entre Mim e o Mundo” seja uma longa carta ao seu amado filho, poderia facilmente transformar-se num diálogo, sem que o sentido da obra se perdesse.
O seu eixo central é a identidade.
Mais de seis décadas depois de Ralph Ellison (com o fantástico “Invisible Man”) ter desbravado o caminho para que a negritude nos EUA fosse problematizada com a merecida elevação, Ta-Nehisi Coates torna todo este percurso mais pessoal e pungente, perante o retrocesso a que os direitos dos negros americanos, tão arduamente conquistados desde os anos 60 do século passado, têm sofrido nos últimos anos.

Sobre a prisão em massa dos negros nos EUA

Com o nascimento do seu filho Samori, momento em que a vida deixou de ser só “sua”, a urgência e o inevitável temor pelo perecimento do seu corpo e dos seus amados torna-se ainda mais premente. Por toda a obra, relembra-nos que todo o discurso é vão perante a imponderabilidade do momento ou local errado, do gesto irreflectido, da palavra descuidada.
Com o leitor estabelece-se uma proximidade cúmplice, como se assistíssemos, por um vidro baço que nos oculta, à história de Ta-Nehisi e, por intermédio da sua escrita, vislumbrássemos desassombradamente o que significa ser negro nos EUA de hoje.
Contudo, o principal destinatário (e simultaneamente cenário e objecto de análise) é a federação dos EUA, com o seu tão contraditório e adiado “Sonho” excepcionalista da “city upon a hill”, que propositadamente exclui os negros e os expõe ao perigo constante, apesar de deles se ter servido como combustível para o seu próprio progresso.

Os argumentos do autor a favor da indemnização dos negros, 
irreversivelmente prejudicados pelo "Sonho" 

“Toda a minha vida assisti a esse sonho. É um sonho de casas perfeitas e relvados prazenteiros. (...) E por muito tempo quis escapar para dentro do Sonho, (...) Mas essa possibilidade nunca existiu, por que o Sonho assenta nas nossas costas (...) é feito com os nossos corpos.”
“Pouquíssimos americanos proclamarão directamente que os negros devem ser entregues às ruas. Mas um grande número de americanos fará tudo ao seu alcance para preservar o Sonho. Ninguém proclamará directamente que as escolas foram concebidas para santificar o fracasso e a destruição. Mas um grande número de educadores falou de «responsabilidade pessoal» num país criado e sustentado por uma irresponsabilidade criminosa. O porpósito desta linguagem de «intenção» e «responsabilidade pessoal» é o de garantir uma vasta exoneração.”.
“No início da Guerra Civil, os nossos corpos roubados valiam quatro mil milhões de dólares, mais do que toda a indústria americana, todas as ferrovias, oficinas e fábricas americanas combinadas, e a principal mercadoria que os nossos corpos roubados produziam, o algodão, era a principal  exportação da América.(...)É este o motivo da grande guerra. Não é segredo.”

Sobre cada trecho pesa o temor, como se todas as páginas fossem irrelevantes perante uma força que cada negro norte-americano reconhece como extrínseca à sua vontade e intrínseca à sua condição e, como tal, irremediável e inamovível, embora não necessariamente indestrutível ou irreformável.
O tom do discurso é duro e intransigente, mas sempre a coerente e realista, escapando aos estereótipos linguísticos e sociológicos.
Concomitantemente ao seu próprio desenvolvimento enquanto homem e cidadão, assistimos à maturação da sua mente, aos desafios colocados ao seu auto-conhecimento.

"How long?Not long, because the arc of the moral universe is long, but it bends toward justice." Assim discursava Martin Luther King, em Montgomery, Alabama, depois de terminada a marcha desde Selma a 25 de Março de 1965, que teve como consequência a extensão do direito de voto aos negros nesse mesmo ano.[i]
(Aqui fica o link para uma excelente conversa com Jon Stewart, aquando do lançamento do livro, bastante esclarecedora acerca da filosofia e da argumentação em que se baseou o autor.)
Mas o medo, décadas depois, mantém-se intenso, entorpecedor e constante, em casa e fora dela. A música e a moda, presentes em qualquer esquina de Baltimore, “a sua armadura contra o mundo”, eram um refúgio, reclamando intensamente essa identidade, corpo e mente, para largos milhares de almas que se viam esbulhados desses e de outros traços essenciais.
A Morte inescapável,eternamente presente e passada, surge nos lugares vazios à mesa ou nos retratos recentes cujos gestos e sorrisos se dissolvem em espectros.
“Ou lhe bato eu ou lhe bate a polícia”, dizia o pai. A violência era o baptismo para o Mundo no seio familiar, como um rito de passagem e preparação para a possibilidade iminente da perda do corpo.
Na leitura, Ta-Nehisi encontra o refúgio para este cerco em que se tornara a sua vida.

“Lia vorazmente porque os livros eram a luz que espreitava pelas frinchas da porta, e para lá dessa porta talvez existisse um outro mundo, um mundo que estivesse para lá do medo paralisante que sustenta o Sonho.”.

Encontra em Malcolm X o pragamatismo ausente de todos os escritos que lhe haviam passado pelas mãos. Pelo seu exemplo de honestidade e liberdade, no discurso e na conduta, sentiu ser possível escapar à prisão de uma herança quase inexpugnável.
A “Meca – ponto de encontro da diáspora negra”, a Universidade de Howard, fez o resto do trabalho. Com o seu poder inclusivo, um corpo discente e docente de eleição e um campus borbulhante de novidade e diversidade, Coates “via agora que o mundo era mais do que um simples negativo das pessoas que acreditam serem brancas. (...) no nosso corpo político segregado, éramos cosmopolitas. A diáspora negra não era apenas o nosso mundo, mas, de tantas maneiras diferentes, o próprio mundo ocidental.”
A negritude ganha nova dignidade nestes anos de estudo profundo e revelações impactantes.
Descobre a poesia como depuração dos pensamentos até que “sobrassem apenas as verdades frias, aceradas da vida”, a discórdia como verdadeiro poder e forma última de auto-análise, o Amor e a genuína tolerância, como derradeira libertação e redenção.
Com a paternidade e o casamento, depois de deixar Howard sem concluir a licenciatura, a transformação é irreversível. Ao filho, deixa as passagens mais belas do livro.

“A verdade é que te devo tudo o que tenho. Antes de ti tinha as minhas perguntas, mas em jogo estava apenas a minha pele (...) Mas um facto simples centrou-me e domesticou-me: se eu caísse agora não cairia sozinho.” “Havia um antes e um depois de ti, e neste depois tu eras o Deus que nunca tive.”.  

Anos depois, descobre por acaso a morte de um amigo da faculdade – Prince Carmen Jones – perseguido por vários estados por um policia à paisana, para depois ser assassinado, com tiros  de caçadeira à queima-roupa, a curta distância da casa da namorada que pretendia visitar, supostamente por semelhanças com um suspeito.
A propósito desta morte sem sentido de um pai, amado e respeitado por pares, amigos e familiares, Ta- Nehisi discorre sobre o sistema policial e judicial viciado e corrompido que permite tamanhas arbitrariedades. Insurge-se, comove-se e, como sempre, verte na escrita e no trabalho jornalístico a raiva que o invade.

“Prince não fora assassinado por um agente isolado, mas sim assassinado pelo seu país e por todos os medos que o marcaram desde o seu nascimento.” “ A verdade é que a polícia reflete a América em toda a sua vontade e medo, e o que quer que pensemos acerca da política de justiça criminal deste país, não se pode dizer que ela tenha sido imposta por uma minoria repressiva. Os abusos (...) são o produto da vontade democrática.”.

Com este episódio e a descoberta de Paris, o americano abraça a tranquilidade do anonimato na capital francesa e é para lá que se muda, para uma nova vida familiar e pacata.
O livro termina com um fugaz “momento de alegria”, uma festa em que Ta-Nehisi regressa a Howard e se deixa dissolver numa efusão de corpos e ritmos, encontrando uma ponte para um património comum, independentemente da côr, género, orientação sexual ou política.
A ameaça ao corpo negro é real e constante, profusamente documentada e comprovada. Contra ela, não há escalada, aviso ou prevenção possivel.
Para manter a sanidade, o equilibrio e, em última instância, a vida, a solução possível de Ta-Nehisi foi a escrita, a proximidade com a realidade por via do jornalismo e o questionamento como caminho e terapêutica.
A sua religião pessoal, que prega a quem o quiser escutar, é a recusa da perpetuidade da retórica excepcionalista enraízada no sistema politico norte-americano, e do pacifismo desde sempre associado aos movimentos dos direitos civis de MLK e dos seus discípulos: vazio, elíptico, em que a condição do negro é de paciente espera por dias melhores e o arco da História se verga para lugar nenhum.
Não vai haver um melhor amanhã e já não basta dar um murro na mesa. É necessário derrubá-la e reconstrui-la, para que todos tenham lugares equiparados na grande família humana.
O caminho implica inteligência e tenacidade, conhecimento profundo da condição do negro contemporâneo, vigilância (adaptando o sentido bíblico do “vigiai” de Mateus, aqui para escapar à tentação de seguir os impulsos mais primários da violência e da vingança) e intervenção social e cívica.


Nesta última vertente, como em tantas outras, o livro e o seu autor têm sido exemplares.
Com a vitória na categoria de não-ficção dos National Book Awards de 2015 e a concessão da MacCarthur Grant (uma bolsa de 625.000 dólares, distribuída por 5 anos, sem qualquer contra partida, atribuída a personalidades que se destacam no panorama cultural desse ano, também chamada “genious grant” ou “bolsa para génios”), Ta-Nehisi contribuiu deveras para uma já adiada reapreciação da literatura negra.
Os candidatos e vencedores que se seguiram nos prémios literários anglo-saxónicos mais destacados, têm incluído sempre um ou mais escritores negros, contribuindo assim para uma maior representatividade nos palmarés e, consequentemente, nas vendas e na projecção mundial das respectivas obras. Os exemplos são já numerosos, mas destaca-se a vitória do inovador “A Brief History of Seven Kilings” do jamaicano Marlon James, ainda indisponível em português, no Booker Prize de 2015.

O discurso de aceitação do National Book 
Award para Não-Ficção em 2015

Entretanto, Ta-Nehisi Coates foi convidado a ressuscitar uma personagem esquecida da Marvel, um super-herói negro com o sugestivo nome de Black Panther, publicada com grande sucesso de crítica e de vendas, batendo recordes de décadas.  
A frase é batida, mas o caminho faz-se mesmo caminhando. Ta-Nehisi deu um passo de gigante com a sua obra prima e a nós, comuns mortais, resta-nos lê-la e partilhá-la, sucumbindo ao poder singular que a literatura desta estirpe possui de nos tornar parte de uma dissonância estranhamente harmoniosa de vozes, projectadas para um futuro desconhecido, que ansiamos livre e tolerante.



[i] A citação completa é de Theodore Parker (1810–1860), pastor reformista branco do Massachusetts e rezava assim: “I do not pretend to understand the moral universe; the arc is a long one, my eye reaches but little ways; I cannot calculate the curve and complete the figure by the experience of sight; I can divine it by conscience. And from what I see I am sure it bends towards justice.".

28 junho 2016

Esse Cabelo - Djaimilia Pereira de Almeida


Lido “Esse Cabelo” (Teorema, 2015), ocorre-nos um trecho de Herberto Helder sobre o estilo, que abre o excelente “Os Passos em Volta”. Reza assim: 
“(...) o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.(...) pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte.”
Embora se trate de uma quase alegoria, ironicamente simplista, à vulgarização e inusitada rotulagem da linguagem poética, a forma sintética como abarca algo tão dissonante e eminentemente pessoal é a base perfeita para uma tentativa, que esperamos bem sucedida, de penetrar nos múltiplos sentidos, por vezes díspares, desta pequena maravilha criada por Djaimilia Pereira de Almeida.
A ideia de retrato é fundamental à estrutura e desenvolvimento do livro. As referências a fotos de família, amigos, locais, espoletam memórias, evocações, reconstituições sentimentais e biográficas, criando um contínuo espaço-tempo que lhe permite livremente avançar e recuar na sua história, sem que se perca o fio à meada, facilitando a delicada intromissão da sua voz, via aforismos certeiros e reflexões que surpreendem pela sua profundidade e beleza.
Em entrevista a Isabel Lucas, aquando do lançamento do livro, a ligação à fotografia é explanada pela escritora. 
“Quando comecei a escrever andava interessada em álbuns de fotografias de família e no que aprendemos ao folheá-los. Queria reproduzir num livro essa experiência, mas não sabia muito bem o que fazer.” (...) “a relação com o álbum é como apercebermo-nos que antes de termos começado já cá estávamos, que somos como uma espécie de deixa, de uma frase numa conversa entre estranhos familiares"
Certamente, muitas serão as memórias “falsas”, forjadas pela sua ficção pessoal, pela facilidade com que a evocação e reconstituição tantas vezes subtraem factos para acrescentar imaginação.
Porém, entre episódios cómicos e ligeiros e outros com o peso dos dias mais cinzentos, escutamos outra narrativa maior que norteia Djaimilia e que poucos (infelizmente) se atrevem a tocar e descrever: a história dos portugueses que regressaram a Portugal (neste caso, sem ligação com o movimento de retorno de 1975, mas mais tarde, já que Djaimilia nasce em Luanda em 1982 e só depois a sua família chega a terras lusas) e dos africanos que para cá emigraram, dos seus ascendentes e descendentes, gerações de esquecidos em todos os quadrantes da sociedade e da cultura, a quem falta a voz numa nação que fizeram e fazem também sua, com suor e lágrimas, com sonhos entalados entre o mar que os separa da terra que ainda chamam sua e uma realidade quotidiana da qual são meros figurantes esquivos.
“O sonho frustrado do meu avô angolano de se tornar cidadão português”, convive com os passeios anónimos em Oeiras da pequena Mila e do seu grupo de amigos e com o “conceito amputado de Lisboa”, onde eram “invisíveis” e a vida dos lisboetas lhes estava “vedada”. Lisboa, que também era e é sua há décadas, apenas lhes devolve uma “visão parcial de nós mesmos”, entre “vidas hipotéticas” e “recordações de vida”.
Mas aqui, nada é panfletário ou reivindicativo. É pessoal, familiar, mas também transbordante de propositada incompletude, de convite à recriação do muito que fica por dizer e se subentende. “Este livro é escrito num pretérito imperfeito de cortesia (...) a virtude devida ao que não se pode dizer”.
O cabelo é metonímia para o que vai passando na cabeça que o sustenta, réplica de outros, indomados, que foram vogando noutras direcções, com outras cores e penteados. Com ele, a narradora vive o primeiro choque mais óbvio com a portugalidade. “Então Mila, quando é que tratas esse cabelo?”, perguntava a sua avó branca. A narradora (Mila ou Djaimilia? a fusão de personas é ardilosa) não deixa dúvidas: 
“O cabelo era então distintamente uma personagem, um alter-ego presente na sala.” . “O descuido que sempre admiti ao meu cabelo ressurge-me enquanto sinal de que aqui me sinto em casa (...). Falo neste cabelo mas, sem prejuízo e precisão, poderia falar nesta cabeça.”.
Mila confessa-nos:
“O amor ao supérfluo ajuda a entender o que somos (...) Aquém de um certo limiar de privilégios, a dedicação apaixonada a coisas de outro modo dispensáveis pode não chegar a ter lugar. Satisfeitas as condições básicas de sobrevivências, porém, a entrega ao supérfluo distingue a nossa humanidade”.
Com este pressuposto em mente, a aparentemente frivolidade que noutra pena seria o tema do cabelo e do “catálogo de salões” por onde passou, torna-se pretexto para desfiar o novelo do seu legado, com a generosidade de quem, até nas pequenas peripécias, encontra algo que a estrutura e eleva.
A sua construção (“ontogénese”) como pessoa, mulher, orgulhosa nas suas raízes, é descrita com a atenção ao detalhe e às contradições que a cercam, entre apartes desdenhosos e assomos de clarividência, que brilhantemente espelha no uso principesco que faz do português, do que cada palavra dá e oculta.
Apesar do cariz predominantemente memorialístico e autobiográfico da obra, a escritora refugia-se na ilusão e na ficção para, mais livremente, poder explanar as suas ideias, sem outras preocupações com quem se pudesse reconhecer nas suas palavras, declarando em entrevista que “Nem todos os momentos do livro dizem respeito à minha vida, experiência ou maneira de ver as coisas, nem ao que foi a minha história de vida”.
Mas o que torna esta obra especial é também o seu carácter híbrido, reflexo literário da própria narradora/autora, juntando à evidente autobiografia, a reflexão, o comentário sociológico e político, o fresco de um Portugal que só chega aos media e à literatura pelas piores razões (com honrosas excepções no passado mais recente).
O ofício da escrita é dissecado com bisturi afiado, de forma quase científica, analítica e até dura, retirando-lhe a dimensão mítica e o peso do tormento romântico que, por hábito, lhe surge associado, como se a narradora estivesse simbolicamente a fechar um ciclo de vida (que esperamos longa) da sua escrita.
Apesar de a ideia base do livro derivar da sua tese académica de doutoramento, é desse rigor da avaliação (baseada no número de citações e outros parâmetros), dessa falsa completude e cientificidade, que considera desligados do verdadeiro trabalho intelectual, que Djaimilia definitivamente se afasta nesta sua estreia literária, criando no processo uma voz literária única, que urge cuidar e incentivar.
“Estar em minoria não consiste apenas em tomar de empréstimo a iconografia da nossa intimidade; consiste em apagar o que pode existir de singular não na vida que vivemos, mas na que não vivemos. A história desse empréstimo parece ter pouco de colectivo. Assemelha-se antes a uma inaptidão pessoal para nos lembrarmos melhor de quem não chegamos a ser. A memória é um demagogo: não nos deixa escolher o que vemos; alimenta-se da tentação de fazermos menos do que não fomos. (...) A única noção admissível de seriedade parece-me agora a de honrar não quem tenho sido, mas quem julgo nunca ter chegado a ser. (...) Não sei pentear-me por escrito sem perder um pouco a mão ao livro.”.
A busca da identidade, pelo mergulho na memória mais íntima, não é tema virgem na literatura, mas hoje, talvez mais do que nunca, é urgente convocá-lo e relê-lo. Encontrar esta identidade africana, portuguesa, miscigenada, tão claramente exposta e retratada com trechos dignos de constante citação, é um achado digno de louvor, pelo que faz para unir o que a história tantas vezes separou, e como bússola no caminho, tantas vezes sinuoso, da compreensão da diferença e da verdadeira empatia com o nosso vizinho.

21 junho 2016

As Coisas Que os Homens Me Explicam - Rebecca Solnit


“ O feminismo, como comentou a escritora Mary Sheer, em 1986, «é a ideia radical de que as mulheres são pessoas.»”

Feminismo. Palavra carregada de simbolismo, que ainda faz tremer homens, algumas mulheres e bastantes conservadores, pregadores e outros quejandos.
Rebecca Solnit é uma voz incómoda para nós, homens, porque nos relembra uma verdade que todos conhecemos, perpetuamos e pouco fazemos para modificar: as mulheres ainda são consideradas seres inferiores em todos os contextos do nosso quotidiano.
Em casos mais extremos mas não menos familiares, são tratadas como seres descartáveis, como nos situações de violência doméstica e crimes sexuais.
Embora o contexto social referido no livro seja o norte-americano, nada remete para uma qualquer realidade distante, sendo antes extensível a qualquer país ocidental desenvolvido, o que torna a sua leitura frequentemente dolorosa e preocupante, mas também divertida e desafiante.
O mero facto de Solnit existir, transmite-nos alguma esperança e alívio, pela tenacidade com que se faz notada e escutada, pela pertinência da sua argumentação e pela inteligência que transparece da sua escrita.
O título da obra poderá apontar para o clássico livro de auto-congratulação dirigido ao público feminino, variações da ideia-base “os homens são uns néscios imundos” distribuídas por umas dezenas de páginas, mas nada poderia estar mais longe da verdade.
Sem perder a toada marcadamente feminista e humanista do seu discurso, Solnit escreve com o cuidado de escapar à futilidade, ao argumento fácil e à preguiça intelectual das generalizações, cuidadosamente apontando excepções e contradições, destacando problemas  e contrabalançando-os com evolução, contextualização sociológica e histórica e esboços de soluções e respostas.
O (bom) humor e a ironia são um bem vindo bónus, contribuindo para tornar acessíveis a qualquer leitor assuntos nem sempre fáceis ou consensuais.
Frases como “Pensem na quantidade de tempo e energia que teríamos a mais e que poderíamos canalizar para outras coisas importantes, se não estivéssemos a tentar sobreviver.” são paradigmáticas do seu estilo provocador e corrosivo, enquanto nos deixam a pensar no quanto contêm de real.
Outro traço distintivo da seu estilo é a capacidade de compreender o fenómeno de perpetuação da subalternização da mulher de forma abrangente, incluindo as mais diversas áreas da cultura e sociedade, com especial incidência nos media.
“Temos mais de 87000 violações por ano neste país todos os anos, mas cada uma delas é invariavelmente descrita como um incidente isolado. Os casos são tantos que formam uma mancha diante dos nossos olhos, mas quase ninguém os relaciona uns com os outros ou dá nome à mancha.”.
A sua influência como ícone cultural e mediático atingiu o zénit com a cunhagem da palavra “mansplain”, com origem num ensaio que escreveu em 2008 e dá título a este livro.
A história real, que o ensaio descreve e de que parte para abarcar uma realidade bem mais vasta, que envolve a arrogância masculina em todo o seu esplendor, é hilariante, pelo que deixo o prazer da sua descoberta ao leitor.
Quanto ao vocábulo, Solnit expressa sentimentos ambíguos e contraditórios. Apesar de um mal disfarçado orgulho na façanha, recusa qualquer crédito na sua criação e revela algum desdém na sua utilização, pela sua carga demasiado generalizante e depreciativa. 



No entanto, não resiste a uma achega mordaz: “Se isso não está suficientemente claro no artigo, deixem-me dizer que adoro que as pessoas me expliquem coisas que sabem e me interessam, mas que ainda não sei; quando me explicam coisas que eu sei e eles não é que a conversa corre mal.”.
O objectivo da sua escrita não é ferir susceptiblidades, embora, atendendo às temáticas em causa, tal se torne inevitável. Reiteradamente retoma esse designio com acertadas ressalvas, mais por honestidade intelectual do que por qualquer outro motivo.
A pertinência da sua reflexão é reveladora e surpreendente, pela capacidade de ver além do óbvio e, para além de expôr e denunciar realidades que poucos assumem, conseguir criar associações inesperadas entre âmbitos aparentemente inconciliáveis, como o feminismo e as evoluções recentes no casamento entre casais do mesmo sexo.
“As revoluções começam, acima de tudo, pelas ideias” e “a libertação é um processo contagioso”.
No caso do casamento nos casais do mesmo sexo, Solnit habilmente desmonta o argumento de que se tratou de um mero processo de alterações legislativas e campanhas massivas conducentes a esse resultado.
Superando o meramente contextual e efémero, Solnit atribui estas mudanças à “transformação da imaginação que levou ao declínio da ignorância, medo e do ódio chamado “homofobia”(...) catalisado pela cultura e promulgado por inúmeras pessoas queer que saíram da caixa chamada “armário” para se assumirem em público”.
Outro aspecto essencial foi a quebra da hegemonia masculina na relação de poderes dentro do casal, operada pelo movimento feminista. Segundo a americana, “as feministas arrancaram o casamento do sistema hierárquico (...) e reinventaram-no como uma relação entre iguais”.
Numa análise mais profunda conclui: “As pessoas que se sentem ameaçadas pela igualdade no casamento sentem-se, ao que tudo indica, tão ameaçadas pela ideia de igualdade entre casais heterossexuais como entre casais do mesmo sexo.”. “Um casamento entre pessoas do mesmo sexo é inerentemente igualitário (...) regra geral, trata-se de uma relação entre pessoas que estão em pé de igualdade (...) livres de definirem os seus próprios papéis.”
Perante estas realidades, Solnit invectiva constantemente o leitor a fazer a diferença, por actos ou palavras, porque é da esfera pessoal que a mudança pode e deve surgir. As “ideias não podem ser apagadas” e estão condenadas a ser propagadas, mesmo quando aparentemente derrotadas ou esquecidas.
Solnit sabe-o e pugna para que também nós não o esqueçamos.
A leitura deste conjunto de ensaios pode ser um começo, mas nunca um fim. Aponta caminhos, cita profusamente estudos actuais e factos históricos e convoca-nos a ver a verdade negra que, infelizmente, ainda nos cerca e assombra.
A aceitação e reconhecimento desta verdade é condição essencial para uma discussão sem preconceitos das suas causas e efeitos, possibilitando assim uma autêntica e irreversível mudança de mentalidades.