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28 outubro 2016

O Luto é a Coisa com Penas - Max Porter


“ E foi isto que ele disse:/ Ficarei até que não precises mais de mim.(...)/ Eu recostei-me para trás, resignado, e desejei que a minha mulher/ não tivesse morrido. Desejei não estar apavorado, caído num gigantesco/ abraço-pássaro no meio do corredor. Desejei não ter/ ficado obcecado com esta coisa justamente no momento / da maior tragédia da minha vida. (…)/ Olá, Corvo, disse eu. Que bom conhecer-te finalmente.*E ele foi-se./ Pela primeira vez em muitos dias, dormi.”

Tudo começa assim.
O eterno retorno a que estamos votados condena-nos à re-petição, ao re-gresso, à re-adaptação.
Uma presença incómoda, porém inevitável, exige atenção e resposta.
A Dor, que parecia afastada da mente e da alma, regressa e apresenta-se, maior, asas negras abertas, dominadoras.
O patriarca de uma família lançada no luto e na luta para dele sair incólume, reconforta-se no seu abraço, a sua chegada mera evidência infalível que apenas tardava.
“Entre o eu natural do Corvo e o seu eu civilizado/ vai-se fazendo um intercâmbio fascinante e constante (…) Parece-me ser o intercâmbio exacto/ entre o luto e vida, então como/ agora. Teria muito a aprender com ele.”

Toma a forma de um corvo. Alucinação talvez. Placebo racional, lógico para um especialista na obra de Ted Hughes, famoso assombrado pela culpa devastadora da perda precoce da sua Sylvia. Também ele pai de um Corvo ficcional, onde cravou bem fundo toda a negritude e solidão que o possuiu, mascarada de poesia sublime e brutal, meta-ficção, recriação.  
Também os seus filhos, ainda infantes, pressentem a mudança súbita.
“(...)sabíamos/ que alguma coisa se passava. Sabíamos que não nos davam/ respostas directas quando perguntávamos «onde está a Mamã?»”.

O melhor livro que li este ano foi publicado originalmente em 2015 e tem um corvo por protagonista.
Escrever isto, ou dizê-lo, pode parecer lunático para quem não encontra o mínimo atractivo na face mais fantástica da literatura, mas basta uma leitura das primeiros páginas de O Luto é a Coisa com Penas (Elsinore, 2016) para perceber que nada poderia ser mais falso.
Para quem teve a felicidade de devorar a versão original, é refrescante constatar a presença activa de tradutores como Daniel Jonas, capaz de fazer o quase impossível e manter a integridade de uma obra singular, no seu uso quase plástico da linguagem e de toda a paleta de recursos disponibilizados pela bela língua de Shakespeare.
A temática é penosa, fantasma que nos assombra até ao fim e os efeitos perenes da realização da sua inevitabilidade.
Como corvos indomados e inteligentes, somos convidados a acompanhar o escritor e os seus narradores, enquanto se distraem e desvendam, estilhaçando a tradição e a crítica literária britânica, mas também os clássicos intocáveis e a abordagem de temáticas soturnas, como a perda, a performatividade e os rituais repetidos por mera conveniência e habituação nestes momentos transversais e omnipresentes.
"Sempre que me sento e passo a vista pelas minhas notas, o Corvo/ aparece no meu escritório (...) A maioria das vezes fica feliz por ficar enrodilhado/ em sossego na poltrona a ler, silvando. (...) Não tem tempo para romances. Só pega/ em livros de História para chamar estúpidos a grandes homens/ ou amaldiçoar a Igreja."

Na sua obra de estreia, Max Porter materializa esta saudável irresponsabilidade e irreverência na figura omnipresente do Corvo. Recusa a rigidez e solenidade obscura com que esta figura mítica foi outrora carregada, para lhe conferir traços antropomórficos de personalidade, sensibilidade e empatia. Aproveitando a inteligência que lhe corre no sangue, extrapola-a ao reino do quase psicanalítico.
“o lugar estava pejado de luto profundo/ cada superfície Mãe morta, lápis de cor, trator, casaco,/ galocha, cobertos com uma película de pesar.”
Ao mesmo tempo, aproveita o longo caminho já percorrido e recupera o peso simbólico desta personagem, com claro destaque para a sua dimensão jocosa, de bobo destruidor de narrativas e verdades, sempre pronto a berrar, a plenos pulmões, as verdades mais inconvenientes, doa a quem doer.
“Noutras versões sou um médico ou um fantasma. (…) Conseguimos fazer coisas/ que outras personagens não conseguem, como comer a mágoa/ desdar à luz segredos e travar batalhas dramáticas com a linguagem/ e com Deus. Eu era amigo, desculpa, deus ex machina, piada, sintoma,/ ficção, espectro, muleta, brinquedo, fantasma, mordaça, analista/ e ama-seca.”
Talvez inadvertidamente, baseia a estrutura da obra numa sucessão de fractais triangulares que se vão expandindo, o que apenas confere profundidade ao texto, sem interferir minimamente na sua acessibilidade.
Edward James Hughes, Ted para os amigos e a eternidade, é profusamente evocado, directa e indirectamente e, com ele, a “sua” Sylvia Plath e a escritora/poeta que, depois da trágica morte da sua esposa, o britânico redescobriu e promoveu no seu país natal: Emily Dickinson, (citada no título do livro e no poema que o introduz, ambos “profanados” pelo Corvo).
É deste triângulo, explorado à exaustão pela crítica literária (incluindo o próprio Porter e, com certeza, o Pai – novo triângulo, com Hughes no vértice superior), que se ergue esta história de reconstrução e reabilitação individual e familiar.
O Corvo anti-mitológico, torna-se realidade diária desta família que perde o Norte, e assume a tarefa de a tentar salvar ou, pelo menos, consolar estes três seres despedaçados. Pai e Meninos, gémeos, com personalidades complementares, formando juntos o triângulo equilátero da Unidade.
“Tente considerar os três, num só (…) À esquerda, temos o pai. (…) A meio, eu próprio. (…) À direita, temos/ os meninos. Duas formas, embora um só vulto”
Também o texto em si se divide em três diferentes vozes: Meninos, Corvo e Pai - com todo o simbolismo associado à trindade, que aqui nos escusamos a relembrar. O Corvo é o intruso, mas isso pouco o apoquenta, porque tem uma missão a cumprir.
“ Uma oportunidade meiga para cuidar”.“Tenho relutância em discutir o absurdo convosco,/ que nos perseguiram desde o começo dos tempos. De que serve/ um corvo diante de uma matilha de humanos pesarosos? (…) Mas preocupo-me, profundamente. Considero os humanos aborrecidos/ excepto no pesar. (…) As crianças/ sem mãe são puro corvo.”
A estrutura estende-se à estratégica divisão do livro. A Parte Um, “Uma Pincelada de Noite”, relata a chegada intempestiva do Corvo; a Parte Três “Licença Para Partir”, a(s) despedida(s) e a Parte Dois, “A Defesa do Ninho”, detalha as tentativas de avançar, centradas na casa e na unidade familiar, tornadas forte do general Corvo, rei e senhor, Mefistófoles e anjo da guarda, lançando um impositivo desassossego.
A memória e o tempo são propositadamente baralhados.
“O Pai contava-nos histórias e as histórias mudavam/ quando o Pai mudava.”“Era uma vez dois meninos/ que, de propósito, trocavam tudo a respeito/ do seu pai. Esquecer coisas relacionadas com a sua mãe/ fazia com que se sentissem melhor.”
O Corvo dá o mote e as crianças mordem a isca. Qualquer um dos narradores nos engana, como também se engana a si mesmo. Nada mais natural do que iludir a realidade, para também a dor lhe seguir o curso, dissimular as suas origens. Deste jogo de fugas, deriva a fragmentação e multiplicidade de registos (fábula, lenda, poesia, farsa, sátira...) sem que, em momento algum, se perca a fluidez e o apelo irresistível a qualquer leitor, independentemente da amplitude dos seus conhecimentos literários.
“Um irmão estava placidamente sentado dentro/ dos pedaços do irmão e esforçava-se muito/ mas sentia-se revoltado. Sou eu. (…) Eu sou ambos os irmãos.”
Como reflexo intrínseco da existência e o passado desta família, também o livro se desintegra para, no final, se reencontrar na poesia dos gestos partilhados, no Amor puro que sobra quando tudo se desmorona.
Como todos os grandes clássicos, o centro de gravidade deste maravilhoso opúsculo é a emoção. De uma história eternamente repetida, que poderia resvalar no sentimentalismo bacoco, saímos revitalizados e optimistas, graças a uma criatividade fulgurante, que casa na perfeição a audácia formal com a facilidade com que nos revemos em cada nuance de todo o elenco de personagens.
Neste livro raro e multifacetado, encontramos pequenos acenos a um amplo espectro de leitores, desde o mais cínico crítico literário, que encontra referências que só ele decifrará satisfeito, ao leitor mais curioso e casual.
“Seguir em frente, como conceito, é para pessoas estúpidas, porque/ qualquer pessoa razoável sabe que o luto é um projecto a longo prazo./ Recuso-me a ser precipitado. Que nenhum homem atrase/ ou acelere ou componha a dor que nos caiba em sorte.”
O seu trunfo e triunfo é o claro menosprezo da banalização dos sentimentos que nos unem, em favor do saudável “desrespeito” pelo que de mais duro a vida nos reserva: o recomeço depois da hecatombe do nada, que se impõe perante as ausências definitivas e irreparáveis.
Indispensável é um eufemismo.
“Sinto tantas saudades dela que me apetecia construir um monumento/ de trinta metros de altura à sua memória com as minhas mãos nuas.(...) Quão palpável é esta minha saudade. (…) A cidade inteira é a saudade que lhe tenho./ Arre, disse o Corvo, pareces um daqueles ímanes que se colam no frigorífico.”

(Texto publicado em DeusMeLivro.com)

25 outubro 2016

Um Copo de Cólera - Raduan Nassar


Aos nossos irmãos brasileiros, associamos velhos arquétipos, eternizados pelas novelas da Globo e pelas notícias que a imprensa deles veicula – malandros, relaxados, despreocupados, alegres, sensuais, descomplexados, abertos, irascíveis, com tudo para “dar certo” mas com tudo a “dar errado”, embora sempre de bem com a vida.
Seguindo uma tendência recente do mercado português, a literatura brasileira chegou em força. Infelizmente começou-se com pezinhos de lã, com consagrados e valores seguros, que os leitores não podem ser desafiados. Honra seja feita aos editores pioneiros, que há anos insistem na divulgação e publicação dos nomes emergentes no Brasil, como o malogrado André Jorge, editor da Cotovia, que durante anos apostou no talento literário do outro lado do oceano (a título de exemplo, foi o primeiro a publicar Tatiana Salem Levi em Portugal, quando ainda nem o Brasil se apercebera da sua qualidade) e se despediu da vida com a edição de dois belos livros do polémico e assertivo Marcelo Mirisola.
Mais recentemente, a Tinta da China tem tido papel preponderante nessa divulgação, com edições sucessivas de novos talentos e velhas glórias.
Pela Companhia das Letras (pertencente ao gigante conglomerado Penguin Random House), chega-nos “Um Copo de Cólera”, obra-prima de Raduan Nassar, mesmo a tempo da consagração com o Prémio Camões de 2016.
Escrita numa quinzena de 1970 e publicada em 1978, em plena ditadura militar (que durou até 1984), basta uma leitura para que seja clara a actualidade e acutilância de cada frase.
De dimensão reduzida e elevado poder dramático e poético, nestas páginas inspiradas encontramos uma novela (maior do que um conto, bem menor do que um romance) cuja escrita é um verdadeiro exercício de liberdade formal e criativa, perfeita no enquadramento de uma violenta discussão conjugal, onde voam impropérios, berros, silêncios, agressões da mais diversa índole, inclementes e com a frontalidade feroz que só os momentos extremos nos permitem atingir.
Mas nem só de cólera vive este opúsculo.
Todo o livro se centra na figura masculina, o narrador que é tudo menos omnisciente e até relativamente distanciado do seu relato.
Outrora um macho-alfa, este professor universitário (de filosofia talvez) é hoje uma sombra envelhecida e casmurra dos seus tempos áureos e, surpresa ou talvez não, passa grande parte da discussão fechado na sua mente, pesando prós e contras, as melhores estratégias de ataque e defesa, como se a vida se tratasse de um mero jogo do qual urge sair vitorioso.
A perspectiva do homem, que vive isolado do Mundo, na sua casa de campo longe da cidade, é  racional e racionalizada, transformando-o num cliché tão pesadamente ideológico e institucional que se aproxima da caricatura, metáfora do tudo o que de pior o machismo e paternalismo representavam no Brasil da época e, para além das aparências e atrás de portas fechadas, ainda representam em demasiados lares. As palavras que cospe são o prolongamento da sua mentalidade, mas sempre debitadas no que imaginamos ser o tom certo, pesadas para produzir o máximo de dano.
A mulher, jovem e idealista, jornalista segura de si e conhecedora do homem que encara, habilmente desmonta cada argumento, frustra os intentos do “opositor” e com descaramento, arrogância e pertinácia, mascara a mágoa que toda a discussão lhe causa.
O que começa como uma manhã tranquila, depois de uma noite de sexo tórrido, passa a inócua troca de palavras sobre um acontecimento aleatório, para, em pouco tempo, se elevar a verdadeiro choque de gerações, politizado e sem tréguas, onde mágoas latentes e silêncios passados tomam conta das emoções.
Uma troca de acusações no reino da sentimentalidade, rápida e irreversivelmente degrada-se em arena de debate político feroz, entre os estabelecidos e os que lutavam para se estabelecer, os amordaçados e os que coabitavam passivamente com uma ditadura militar, que condicionava as liberdades fundamentais. A micro-realidade de um casal é apresentada como projecção inevitável de uma macro-realidade nacional, que a afectava mortalmente.
Apenas no último capítulo (primeiro e último capítulo, de um total de sete, são homónimos. “Chegada” é o seu nome.) conhecemos a “voz” e a perspectiva feminina em discurso directo, num assomo genial de ironia do autor.
Ao leitor, demonstra com classe e subtileza que o chauvinismo nem sempre tem os efeitos pretendidos e deixa a narrativa em aberto, o que poderia dar uma excelente sequela, não fosse o detalhe anteriormente referido fechar estruturalmente a obra.
Uma estocada final no anacronismo da mentalidade brasileira vigente à época, disseminada também ao Ocidente, onde, ainda hoje, a violência nas relações é comummente aceite, como decorrência quase natural de uma relação consensual (v. qualquer estudo sobre a matéria).
Neste obra, tudo tresanda a desejo e sedução, mas também carne e sangue, suor e tesão, ataque e defesa, uma verdadeira batalha física, moral, intelectual, onde todos saem feridos e não há vencedores nem vencidos.
Talvez nós, leitores, vençamos no final, brindados com o uso singular e certeiro do português aberto e luminoso do outro lado do Atlântico que, graças aos deuses, foi mantido sem adaptações aos nossos vocábulos fechados e expressões cujo formalismo quase teatral seria totalmente descabido neste contexto.
Os dois protagonistas, nunca nomeados ou verdadeiramente descritos, amam-se e odeiam-se em igual medida.
Uma dose de despeito transborda a cada troca verbal, como se juntas formassem um copo de cólera em ebulição, onde não cabe nem mais um gota que o arrefeça.
São díspares as suas vivências e convicções políticas, sociológicas, vitais.
A cama já não chega para calar as palavras não ditas, para evitar a confrontação de duas gerações opostas de um Brasil em convulsão, constantemente adiado.
Mais de meio século depois, o que mudou?
A sensualidade latente, o poder de sedução e a manipulação mantêm-se intactos.
Os extremos tocam-se apenas para se ferirem e obterem vitórias temporárias.
É um Amor autofágico, que se acaba por não ter mais por onde arder (Saravá Tê).

Será também assim o Brasil, sempre ferido, em chamas? Terá que morrer para se reerguer? 

(Texto publicado no DeusMeLivro.com)

13 outubro 2016

Eu Sou Uma Antologia - 136 Autores Fictícios


Jerónimo Pizarro, aqui em co-autoria com Patricio Ferrari, com a ajuda da Tinta da China (que o edita desde que iniciou a sua pesquisa), veio trazer uma nova abordagem à obra de Fernando Pessoa, no sentido de uma dessacralização dos estudos pessoanos, já cristalizados e nem sempre satisfatórios ou sequer cientificamente inatacáveis, e da própria figura do poeta, visto como um semideus de genialidade e criatividade, contribuindo para um retrato mais fiel, contextualizado e integrado de um dos maiores cultores da nossa língua.
Como vem sendo hábito nestas edições, a grafia original é mantida, opção que não é consensualmente aceite, mas reveladora de um grande rigor histórico perante o espólio do poeta e de uma recusa em alterar os originais com qualquer adaptação ou alteração (excepto as necessárias para garantir a legibilidade, sempre devidamente assinaladas).
“Eu sou uma anthologia./Screvo tam diversamente/que, pouca ou muita valia/Dos poemas, ninguém diria/ Que o poeta é um sòmente.”. Assim escrevia Pessoa, em Dezembro de 1932, e é daqui que Pizarro parte à descoberta do vasto universo heteronímico do lisboeta do Mundo.
Na introdução, Jerónimo Pizarro confessa que, dependendo dos critério de inclusão e exclusão, a lista de heterónimos poderá ser ainda maior. Na pesquisa de cerca de 30000 folhas do espólio pessoano, em busca dos chamados “vestígios ficcionais”, o investigador descobre a prática da “despersonalização dramática”, em que várias personagens/“almas” de Pessoa, se vão sucessivamente desdobrando e ramificando em outros nomes, outras vidas. Por exemplo, é de Alberto Caeiro que nasce um “Ricardo Reis latente” e de um Wyatt e um Crosse nasce um conjunto de personagens com o mesmo apelido.
O critério escolhido para inclusão nesta lista foi a “existência de um nexo com pelo menos um escrito (…) ou uma tarefa específica atribuída”. Para além disso, as personagens “são autoras (publicaram textos nas revistas Orpheu e Athena, por exemplo) e por vezes dialogam entre si “.
O que é verdadeiramente Pessoa, vulgarmente conhecido como o Pessoa ortónimo? Ou serão todos estes personagens, heterónimos e pseudónimos também ele, o mesmo, apenas desdobrado em “inúmeros espelhos”?
A resposta fica em aberto, como quase sempre que este gigantesco manancial literário é abordado. Mas o fascínio que emana desta obra reside precisamente na capacidade da sua escrita, quase um século depois da sua morte, ainda suscitar questões essenciais, quase filosóficas (e até místicas para alguns, incluíndo o próprio) sobre os contornos da obra literária e da autoria.
Nesta antologia, esses limites são diluídos, quer entre o criador e as suas criaturas, quer na relação entre as “criaturas”, que se entrecruzam, citam e desdobram, segundo instruções expressas de Pessoa (que nem sempre foram concretizadas), em cartas e escritos, cujos fac-símiles podemos ler e apreciar.
Surpreende (ou talvez não...) a diversidade de registos.
Para quem pensava que o universo heteronímico pessoano se ficava pelo género masculino, encontra aqui algumas excepções. Maria José, uma jovem de 19 anos, corcunda, confinada aos limites da seu quarto, apaixona-se pelo serralheiro que vê passar debaixo da sua janela e escreve-lhe uma carta de amor que sabe que nunca lhe chegará.
Para todas estas personagens, Pessoa criou assinaturas, por vezes até cartões de visita e profissionais, com os quais enviava e recebia correio.
Encarregou-as de escrever em diversas línguas (inglês, francês, alemão), efectuar trabalhos de tradução e comentário, textos críticos e até sessões mediúnicas, descritas com pormenor.
O detalhe que algumas destas construções ficcionais assumem torna-se a um tempo inacreditável, pelo aparente contraste entre si, e deslumbrante, por serem prova de que, numa mesma mente, cabem tantos quantos sejamos capazes de manter.
No final do Posfácio, numa demonstração de honestidade intelectual e reconhecimento do trabalho anteriormente desenvolvido por outros autores nesta área específica, Pizarro refere ainda personagens presentes noutras obras que procuraram o mesmo desiderato desta colectânea, explicando as razões da sua exclusão e deixando em aberto a investigação sempre inacabada dos muitos Eus pessoanos.
Um livro indispensável, não só para os estudiosos da matéria, como para qualquer bibliófilo, pela sua contribuição no alargamento fundamentado da nossa perspectiva sobre a literatura que molda (e moldará) tanto da nossa portugalidade e do cunho literário lusitano, dentro e fora das fronteiras físicas.
Na vida, como na literatura, a percepção que projectamos e recebemos é tudo. O resto é pura imaginação e conjectura. Desse contraste se alimentou Pessoa e as pessoas/espelhos que albergava. Passaremos gerações a tentar decifrá-las. Este é mais um tijolo dessa construção.

(Publicado na comunidadeculturaearte.com)


30 agosto 2016

A partir de uma história verdadeira - Delphine de Vigan


“(...) dois adolescentes que acabavam de saír de uma sessão de cinema sentaram-se à minha frente. Um deles estava a explicar ao outro que o filme que tinham visto (...) estava muito próximo da realidade: era quase tudo verdade. (...)- Já viste a quantidade de filmes que têm estreado e que são baseados em histórias verdadeiras? É caso para perguntar se os tipos não estão com falta de inspiração! (...)- Não é isso...é sobretudo porque o real tem tomates para ir muito mais longe.Foi aquela frase que me siderou (...): o real tinha tomates. (...) era fruto de uma força superior, muito mais criativa, audaciosa e imaginativa do que tudo o que conseguíssemos inventar. (...) uma imensa maquinação controlada por um demiurgo com um poder incontestável.” (pg. 298)                                                                                                     
“a escrita é a destruição de toda a voz, de todo o ponto de origem. É aquele espaço neutro, compósito e oblíquo por onde foge o nosso sujeito, o negativo onde toda a identidade se perde, a começar precisamente pela do corpo que escreve. (...) desde o momento em que um facto é contado, para fins intransitivos, e não para agir diretamente sobre o real, isto é, finalmente livre de qualquer função que não o próprio exercício do símbolo, produz-se este desfasamento, a voz perde a sua origem, o autor começa a morrer, nasce a escrita.” (Roland Barthes “A Morte do Autor”)

Os thrillers são, ainda hoje, uma referência incontornável para cinéfilos e leitores.
Desde os seus primórdios, com cultores de qualidade inquestionável (principalmente na época áurea do film noir, da pulp fiction e do hard-boiled americanos), tornaram-se convincentes formas de entretenimento e até, de subreptício comentário social, formulando a equação cinemática perfeita de argumentos memoráveis, desempenhos interpretativos que fizeram carreiras, técnicas de iluminação e de câmara inovadoras, como o chiaroescuro, os planos picados e os planos suíços, e o desenho sempre dúbio das personagens.
Na Literatura, destacaram-se Raymond Chandler, Dashiell Hammett ou Agatha Christie, só para citar alguns. A narrativa caracteriza-se pela tensão e suspense constantes, com uma acção rápida e por vezes violenta e explícita. A tradição do anonimato dos seus autores era vulgar, com muitos dos escritores do estilo a optarem por pseudónimos.
Na 7ª Arte, Hitchcock trouxe o apogeu do género, revolucionando o cinema e a cultura popular e, com eles, a máquina promocional, o selecção de actores, a encenação e até o modo como o elenco, em especial os protagonistas, eram “motivados” a dar o melhor de si a cada “take”.
O britânico controlava tudo o que gravitava em torno do filme, desde a sua génese ao último segundo da projecção, influindo igualmente na sua apresentação mediática, por via do jogo com as perspectivas pré-estabelecidas, paradigmas e emoções mais primárias do espectador, induzindo a primeira verdadeira experiência cinematográfica imersiva de sucesso planetário da história do cinema.
O seu segredo, hoje amplamente divulgado? A manipulação exímia e por vezes perversa e sem escrúpulos. Mas os resultados são inegáveis e hoje é “Vertigo” que ocupa o topo do pódio dos melhores filmes da história do cinema, segundo a crítica mais respeitada.
“Porquê começar por aqui?”, pergunta o leitor ligeiramente baralhado.
Desde logo, porque em “A Partir de...”, o cariz cinemático e cénico é inegável, graças à sua divisão estrutural em três actos: sedução, depressão e traição. Enganadoramente linear, como uma tragédia ou uma série televisiva de três temporadas, este esqueleto onde assentam as formas do romance não é displicente ou casual, enquadrando eficazmente a trama e percurso das personagens e, em simultâneo, uma provocando uma disrupção no contexto narrativo deste género literário.
Por outro lado, a personagem principal não é L. ou Delphine, ou qualquer das sombras que gravita em torno da chama de sua relação.
Manipulação. Engano. Mentira. Disfarce. Camuflagem. Duplicidade. Desmultiplicação. Projecção. Eis o elenco principal do livro, onde apesar de pouco se inovar (quer no desenho das personagens, quer nas temáticas), somos constantemente interpelados e questionados, despertados do torpor induzido por uma narrativa de puro desgaste, presente em grande parte da obra.
Aproximamo-nos assim de Delphine, narradora homónima da autora, a que esta última atribui factos biográficos seus, para, em seguida, ficcionalmente os reciclar e devolver ao leitor, para que este vislumbre um feixe de luz no buraco negro em que a vida da sua anti-heroína se transforma, encaminhando-a para a anulação total.

“Agora que exponho os factos, (...) tenho consciência de que revelam uma espécie de trama (...) a progressão lenta e obstinada de L., dia após dia delineando o seu objectivo.”

Com Delphine partilhamos a paranóia latente, a insegurança relapsa de uma infância e adolescência problemáticas, o cansaço, numa construção lenta, penosa e inexorável de uma tragédia (através dos clássicos indícios ou presságios estrategicamente colocados em momentos chave)  que se anuncia sem se concretizar.
O conceito de mise en abyme, é fulcral à sua construção e compreensão do romance e da sua protagonista, pelo que urge explaná-lo.
Na literatura, foi cunhado por André Gide nos anos vinte do século passado, embora a sua utilização fosse já bastante banal, e designa uma recorrência literária, em que se opera um efeito de infinita regressão e reprodução sucessiva de determinado motivo narrativo (p. ex. um evento ou uma recordação), que acaba por conferir uma nova camada de significado à obra. Usando o senso comum, é facilmente demonstrável. Imaginem um reflexo num espelho, que vos devolve a vossa imagem a segurar um espelho. A infinidade de reflexos que observam no espelho que seguram, surge graças ao efeito óptico de mise-en-abyme.
Exemplo acabado deste jogo de espelhos é a própria Delphine de Vigan e forma como coloca o leitor perante diversas realidades paralelas, complementares, reflexas, que convergem na obra.
O leitor é confrontado com uma Delphine múltipla. Por um lado, sabe que “na vida real” escreveu, quatro anos antes da acção descrita no livro, o grande sucesso da sua carreira Rien ne s´oppose à la nuit, em que detalha o suicídio da sua mãe e a sua vida familiar, tal como a narradora Delphine.
Por outro lado, o seu romance de estreia Jours sans faim (2001) foi publicado sob o pseudónimo de Lou Delvig, cujo nome Lou encontramos, por sua vez, no seu livro No et moi (2007), adaptado para cinema, com argumento escrito pela própria. É desta fluidez de identidades e realidades que a autora se serve para urdir este envolvente romance, apropriação ideal para esta época de informação instantânea, já que um aprofundamento da identidade pública da escritora apenas contribui para adensar a trama e, na mente do leitor, dissolver as fronteiras entre a realidade e a ficção.
Outro conceito central é o de duplo, doppelgänger, réplica exacta de alguém, imortalizada pela pena de imortais como Poe, Saramago ou Dostoievski e outros. No folclore tradicional, onde nasceu e se enraizou este mito, o duplo era frequentemente visto como o lado negro da pessoa e simbolizava má sorte e tragédia. A L., encaixa como uma luva este traje.
Escondida com o rabo de fora ao longo das quase 400 páginas do livro (que se lêem com uma voracidade de leão), como qualquer felina que se preze, encontramos a Literatura.
Na realidade, “A Partir de uma história verdadeira” é uma longa e sonora gargalhada sarcástica de Delphine de Vigan, direccionada ao leitor novo, aos fãs, ao mercado livreiro, à cultura contemporânea e, em particular, à francesa. O thriller, coberto de duplos sentidos e paráfrases, mascara habilmente uma reflexão irónica, realista e sedutora sobre a Literatura nas suas várias fases, com maior enfoque na sua criação.
Delphine (a narradora) e Delphine de Vigan, a escritora, afrontam as expectativas que hoje recaem sobre uma escritora criativa e bem-sucedida, cujo êxito se baseou numa fórmula que não pretende repetir.
L., nos seus longos monólogos doutrinadores, procura convertê-la à religião do mercado e ao seu mantra.

“O leitor está-se nas tintas. Tens de encontrar (...) algo mais pessoal, algo que venha de ti, da tua história (...) Pois não resta nada das personagens de ficção, se não tiverem uma ligação ao real.”

O desejo que dela jorrem sucedâneos, que completem a torrente de Verdade inaugurada anteriormente, aprofundando o cariz mais revelatório e sensacionalista da sua escrita, esquecendo a inspiração e até a vontade da própria, é quase opressivo, como se também os livros estivessem já subjugados pela tirania da maioria, perdendo-se irremediavelmente o espaço reservado ao exercício da fantasia e da ilusão.
No seu lugar, banaliza-se o canibalismo e dissecação do autor, como ser humano para além da sua arte, por parte de um ávido exército de leitores, regularmente alimentado pelo marketing das editoras. O escritor, tal como a obra, torna-se um produto transacionável e perecível, que urge aproveitar enquanto não se gasta a bateria.

“os escritores têm de concentrar-se naquilo que os distingue, voltar ao cerne da questão. E sabes qual é? (...) dar conta do real, dizer a verdade. (...) É isso que o leitor espera dos romancistas: que ponham as tripas de fora (...) E doravante o dever da literatura é fazer jogo limpo.”

Em entrevista de 2015 à Paris Match, a autora desvenda a questão essencial que subjaz a todo o romance:

“A questão que sustenta o romance é a do verdadeiro. Este livro foi escrito em resposta à fascinação extrema da nossa sociedade pelo verdadeiro, “verdadeiro” na TV, “verdadeiro” no cinema, “verdadeiro” na escrita. Sou muito permeável a esta tendência pesada e profunda. Sou a primeira a ler as revistas “do social”, a interessar-me pelo que há de verdade numa história que me dizem ter sido inspirada em factos reais. (...) É remanescente da fascinação pelo “fait divers”, parece-me. E do culto da transparência.(...) Isto fascina-me e assusta-me simultaneamente. “ (nossa tradução)
   
A verdade a todo o custo, disseminada por toda a cultura como um vírus, surge como um obstáculo quase intransponível e incapacitante, encarnado por L., o anjo mau, o negativo da frágil Delphine.
Em tempos de crise, a literatura é a primeira vítima desta, tal como toda cultura. É encarada como mero escapismo, um acessório bonito para ter por perto na construção de um perfil social, público e aprovado, que hoje se quer com o Facebook sempre actualizado, a par dos tempos, mas também sintonizado com esse contínuo que vem sendo tecido desde que a memória foi baptizada como tal.
Se for fácil de consumir, como fast-food para a mente, tanto melhor. As citações costumam resultar bem, para este efeito. E as listas de tudo e mais alguma coisa.
Se for uma porta escancarada para a vida alheia, de preferência em linguagem de livro infantil e com factos imediatamente verificáveis em qualquer agregador de informação, ouro sobre azul. Uma capa bonita também convém, excelente para fazer pendant com a pulseira e o relógio...e etc., percebem a ideia.

“verdade, era isso que as pessoas esperavam, o real garantido por um carimbo nos filmes e nos livros semelhante ao selo vermelho ou biológico dos produtos alimentares, um certificado de autenticidade. Pensava que as pessoas apenas pretendiam que as histórias as interessassem, as comovessem, as apaixonassem. Mas estava enganada. As pessoas queriam que aquilo tivesse tido lugar, algures, que aquilo pudesse ser confirmado. Queriam o vivido. As pessoas queriam identificar-se, sentir empatia, e para isso, precisavam de ter garantias em relação à mercadoria, exigiam um mínimo de traçabilidade. ”

Com experiência de sobra no meio cultural e consciente do seu tempo, Vigan serve-se da formalidade literária para elaborar a sua reflexão sobre a literatura, entre factos “verdadeiros” e a mais pura ficção, estilhaçando as estafadas fórmulas de causa-efeito, tão populares em quase todas as omnipresentes listas de livros mais vendidos, das quais, mantendo o seu caminho, acabou por fazer parte e colher os louros.
Em entrevista à belga La Libre, fala do registo pretendido na obra e no percurso para o obter:

“No que respeita à autenticidade do gesto e à sinceridade que ele envolve, este livro é provavelmente o meu texto mais pessoal. Espero que ele mostre mais de perto o que é o processo de criação, aquilo que envolve, a origem da escrita. Podia escrever um ensaio, escolhi a forma romanesca. Para mim, partilhar isso com o leitor é extremamente sincero. Tenho a impressão de me ter exposto muito, mais do que noutros livros supostamente mais autobiográficos, e não tive a sensação de manipular o leitor. Para mim, o importante é o modo como contamos uma história: sem procurar agradar, nem estar onde nos esperam, nem satisfazer uma curiosidade, nem continuar o livro anterior. É traçar o seu próprio caminho, saber claramente o que devemos escrever. É de uma extrema intimidade que tal não corresponda a nenhuma necessidade exterior. Talvez alguns leitores gostassem que eu escrevesse sobre o meu pai, mas esse não era o meu trajecto.” (tradução nossa)

A ironia suprema começa ainda antes da primeira página do livro - no título.
O facto de partir do (falso) pressuposto de que se trata de uma “história verdadeira”, semeando factos autobiográficos (o marido, os filhos, a vida social, a “casa de férias”, o círculo de amigos...), que manipula e converte numa amálgama ficcional, confirma a paródia à sua anterior obra Rien ne s´oppose à la nuit, pesadamente autobiográfica, e ao próprio sistema editorial, já que, ao mesmo tempo que induz um sentido (forjado) de continuidade no registo autobiográfico (ou pelo menos semeia no leitor a dúvida sobre a veracidade dos factos), entra no território da ficção e com um livro distinto do anterior.
Poderia tratar-se de um compromisso da escritora, mas não é o caso.
Qualquer obra escrita, para que possa apelidar-se de literária, por muito que tente inovar, acaba por subsumir-se a um ou vários temas-base que a sustentam.
A Escrita, como verdadeira mundividência,  em todos os seus vícios e virtudes, assume aqui todo o protagonismo.
A Identidade (a pessoal e a que emana do que é escrito) e a importância do Tempo e da Memória na sua construção e desenvolvimento não lhe ficam atrás, embora aqui para efeitos mais ficcionais (estilísticos e lúdicos), do que propriamente substanciais.
Identidade, Memória e Tempo, nas variações a que são sujeitas ao longo de uma vida, são a base estrutural do thriller contido na obra. Uma história de apropriação, quase parasitismo, definitivamente possessão de Delphine por L..
O marido de Delphine, François, constata o óbvio:

“Sabes, por vezes chego a pensar se não estarás possuída por alguém”.

A Memória e o Tempo entrecruzam-se e são o norte magnético onde converge toda a trama, principalmente quanto à narradora Delphine, personagem em busca da autenticidade artística e pessoal, quase sacrificando no processo a sua sanidade mental e física.
Os diários que mantém desde os doze anos até ao nascimento dos seus filhos gémeos, funcionam como referencial para o seu passado e inadvertida projecção no seu presente e futuro. Através deles, logrou fixar os eventos e complexidade de sentimentos de uma adolescência problemática que, de outro modo, se dissolveria com o passar do Tempo.
Por outro lado, essas memórias escritas permitem-lhe a conclusão do seu primeiro livro. Por intermédio da prática quotidiana da escrita, a sua arte evoluíu para a literariedade, sem qualquer preparação consciente.

“Era um tesouro. Aqueles cadernos constituíam a minha memória. Continham inúmeros pormenores, histórias, situações que eu já esquecera. Continham as minhas esperanças, as minhas dúvidas, a minha dor. A minha cura. Continham aquilo de que eu me libertara para conseguir manter-me de pé (...) Aquilo que continua a atormentar-nos, sem nos darmos conta.”

O Tempo é cuidadosamente descrito, ou mantido na obscuridade, conforme o estado de espírito da protagonista e os próprios factos em causa. Evocar o passado é doloroso, porém necessário e quase terapêutico. No entanto, tais verdades nem sempre viabilizam a reminiscência e nestes casos de impotência, a impossibilidade de aguçar o engenho é declarada, qualquer que seja o grau de necessidade.
A percepção temporal de Delphine é vaga a espaços, embalada pela dor e pela incerteza que a Memória insiste em guardar.

“Hoje ao tentar reconstituir esta conversa, sinto-me tentada a pensar que L. apalpava o terreno, avaliava a as suas hipóteses de conquista. Mas na realidade não estou certa de que as coisas tenham sido tão claras.”

A Identidade de Delphine é constantemente manipulada, até à regressão, desapropriação e desagregação , a partir do momento em que L. surge na sua vida.
Com os acontecimentos do final, e tantos eventos duvidosos ao longo do livro, coloca-se a dúvida, até ao leitor: será que L. existiu realmente, ou tratou-se apenas de um mecanismo mental inadvertidamente criado pela protagonista para ultrapassar o seu bloqueio criativo? Bipolaridade por bloqueio criativo?

“(...) durante muito tempo acreditei que “emotivo” tinha algo a ver com a quantidade de vocabulário que um individuo possuía: eu era uma menina e-mot-iva (jogo de palavras com (...) “émotif” (emotivo) e “mot” (palavra). (N. da T.))”, ou seja, a quem faltavam as palavras (...) Julguei por isso que para viver em sociedade era preciso dispor de palavras, não hesitar em multiplicá-las (...). O vocabulário assim adquirido iria pouco a pouco criando uma carapaça (...) que me permitiria andar pelo mundo, alerta e confiante.”

Como todos nós, em determinada altura da nossa vida, também Delphine desenhou a sua personalidade por forma a subtrair ao olhar alheio os seus pontos fracos. A timidez e insegurança crónicas da infância e puberdade, entretanto dissipadas pela socialização, pelos seus processos defensivos e pela criação literária, tomam-na de forma avassaladora após conhecer L., reduzindo-a a um quase espectro.
L., Elle, Ela em francês, inicialmente o negativo de Delphine, paulatina e literalmente, inverte os papéis, chegando uma fase em que a protagonista confessa:

“...em breve, de mim restará apenas uma pele morta, ressequida, um invólucro vazio.”.

Apropriadamente, era escritora-fantasma. O seu modus operandi consistia em conviver com o objecto da sua obra durante longos períodos, até se dissolver no seu quotidiano e, assim, obter as informações e peculiaridades necessárias à criação de um registo convincentemente íntimo e verdadeiro do “autor”. Escusado será referir que era exímia no sua tarefa.
Em trabalho para o seu objectivo bastante literário, que persegue tenazmente, não olha a meios para atingir o seu objectivo final.
Mais do que um artifício para construção do enredo, o “mise en abyme” é uma forma inteligente de incluir diferentes estilos literários no texto, e a sua inexistência, inutilizaria toda funcionalidade e pertinência de muitos dos trechos essenciais da obra. 
O leitor é conduzido numa descida lenta e irreversível à submissão absoluta de uma mulher a outra. Simultaneamente, a sua paciência, resiliência e expectativas, vão sendo testadas e demolidas, emulando, numa dimensão “real”, a desintegração do Eu de Delphine e a sua metódica e infalível apropriação por L..
A impotência é quase palpável, ao testemunharmos os constantes pensamentos e actos conciliatórios de Delphine face ao comportamento progressivamente incompreensível e agressivo de L., como quem assiste ao arder do rastilho de uma bomba impossível de despoletar.

“Sentia o seu olhar indignado, apontado para mim como uma arma. Comecei a sentir-me culpada de uma coisa que ainda não existia (...) não fazia sentido nenhum.”

Nesta dialéctica doentia, é perceptível uma pesquisa aturada na psicanálise e psicologia por parte da autora, e um cuidado extremo na construção das personagens, para que a cada acto corresponda uma consequência lógica e não se quebre, pela inverosimilhança, a adesão do leitor a este jogo de submissão.
A experiência na escrita de argumentos cinematográficos é aqui bastante útil e óbvia, contribuindo para conferir particular acuidade e tensão a cada diálogo e silêncio entre as protagonistas.
L., como a consciência da narradora Delphine, antítese de tudo o que a Escrita representa para si, personificação da “anti-literatura”, relembra-lhe, até à derradeira página, os passos para o sucesso literário garantido, defendendo intransigentemente a “verdade” e pugnando para que ela prevaleça na sua escrita. No final, vence. Ou será que não?
Numa das trocas de argumentos mais acesas do livro, L. e Delphine debatem prós e contras para as suas posições sobre a literatura.

“Os leitores (...) esperam mais da literatura (...): esperam o Verdadeiro, o autêntico, querem que lhes contem a vida, estás a perceber? (...)- É assim tão importante que a vida que se conta nos livros seja verdadeira ou falsa?- Sim, é importante. É importante que sejam verdadeiros.- Mas como podem saber? As pessoas, como dizes, talvez precisem apenas que soe bem. Aliás, talvez seja esse o mistério da escrita: soa bem ou não soa. Julgo que as pessoas sabem que aquilo que escrevemos nunca nos é totalmente estranho. Sabem que há sempre um fio, um motivo, uma falha, que nos liga ao texto. E aceitam que substituamos, que condensemos, que desviemos, que alteremos. E que inventemos.”

Assistimos ao confronto entre duas mundividências literárias, diametralmente opostas: a literatura-ficção e a literatura-verdade.
A literatura-ficção, representada pela narradora Delphine, em que o Real é trabalhado, interpretado e reescrito, até ao grau de literariedade necessário para poder ser considerada distinta de qualquer mero relato de actos e pensamentos pessoais do quotidiano. Apesar de a defender acerrimamente, Delphine acaba por ceder, perto do final, ao tentar o clássico “virar o feitiço contra o feiticeiro”, desajeitadamente cedendo à cilada de tentar apropriar-se da biografia que L. lhe vai revelando.

 “-Mas não há uma verdade. A verdade não existe. (...) Mas começamos a suprimir, estender, apertar, tapar os buracos, estamos na ficção. Andava à procura da verdade, sim (...) Mas toda a escrita é um romance. A narrativa é uma ilusão. Não existe. Nenhum livro deveria ser autorizado a ter essa menção impressa”

A literatura-verdade, hoje tão em voga, onde o marketing e uma série de alusões à vida do escritor sacralizam o livro, elevam-no a um patamar de maior pureza perante o leitor, por contarem em si o autor.

“Não me refiro ao resultado. Falo da intenção, do impulso. A escrita deve ser a procura de uma verdade, caso contrário não é nada. (...) A única escrita que existe é a escrita de si. O resto não interessa.”

O resultado deste embate talhado por Delphine de Vigan, é uma obra híbrida, que prova que que o livro, qualquer que seja o autor, a circunstância que relata ou em que foi elaborado, não passa de um pretexto para envolver o leitor numa realidade alheia à sua e com essa farsa, dissimular o escritor com o traje que melhor lhe convier.
Ganha quem lê, com a diversidade que recebe, e o autor, que vê a sua intimidade reservada à criação e ao deleite dos pequenos nadas que apenas a si dizem respeito.
Por mais contraditório que possa parecer, em “A Partir de Uma História Verdadeira”, a literatura surge resgatada como o derradeiro reduto de intimidade, numa época em que quase toda a esfera privada (mesmo a dessa espécie em vias de extinção que são os escritores) se torna pública, global e partilhada.
Este livro é a demonstração cabal da personalidade e originalidade que o autor ainda pode imprimir na sua obra, mesmo quando imerso na ficção e no seu mundo interior.

 “- Estamo-nos nas tintas para essa verdade (...)/
- Não, não estamos. As pessoas sabem-no, sentem-no. Eu sei-o, quando leio um livro. (...)- Não achas que consegues senti-lo, como dizes, porque já o sabes? Porque tiveram o cuidado de informar-te de alguma forma que se tratava de uma história verdadeira, ou “inspirada em factos reais” ou «muito autobiográfica», e que essa simples  etiqueta bastou para despertar em ti (...) um tipo de curiosidade que todos temos (...) pelos episódios do quotidiano? Mas sabes, não estou certa de que o real seja suficiente. O real, se é que existe, (...) precisa de ser descarnado, transformado, interpretado. Sem um olhar, um ponto de vista, é uma grande seca (...) é um total ansiogénico. E esse trabalho é sempre uma forma de ficção.”

Com um simples asterisco, repetido no início de cada capítulo e no final do livro (cujo significado percebemos finalmente por volta da pg. 230), e com a surpresa final, novamente muito literária, Delphine de Vigan revela-se a verdadeira bonecreira, fabricando um “livro fantasma” sobre ela própria, a sua vida, o ofício da escrita, uma verdadeira e envolvente ficção (que cumpre o objectivo da própria narradora homónima, embora só o leitor, omnisciente graças aos apartes da narradora, o saiba).
O derradeiro mise-en-abime literário é completado pelo leitor, que interpretará o livro dentro do livro dentro do livro, num ciclo interminável de alternância, para no final ser novamente uno.
Chegados à última página, percebemos onde fomos conduzidos, sem que para tal fossemos vítimas de qualquer truque ou engano. Delphine de Vigan, apesar de jogar de acordo com as regras impostas pelo sistema editorial, cumpre o seu plano de escrever ficção e é bafejada pelo sucesso e reconhecimento merecidos. O Goncourt e o Renaudault que juntou ao seu palmarés falam por si. Pela voz da sua narradora, deixa-nos uma mensagem clara no final do livro.

“- Na verdade, Léa gostava de saber se é sincera. Por vezes, ao ler o seu livro, ela teve dúvidas (...) Aquilo que conta é mesmo verdadeiro? (...)Por um segundo, tive vontade de responder a Léa que tinha acertado em cheio. Claro que não, era evidente que tudo aquilo era mera efabulação, nada daquilo que eu contara, sucedera (...)Em seguida, tentei explicar-lhe (...) como o real me parecia inacessível.- Mesmo que aquilo tenha sucedido (...), não deixa de ser uma história que estamos a contar. Contamo-la a nós próprios. (...) Somos todos voyeurs”...“Não acredito no tom de verdade (...) Estou absolutamente convencida de que vós, nós, leitores, tantos quantos somos, podíamos ser completamente enganados por um livro que se deixasse ler como verdade e que não fosse senão uma invenção, um disfarce, pura imaginação. Penso que qualquer autor minimamente hábil pode fazê-lo. Multiplicar os efeitos do real para fazer com que acreditem que aquilo que está a contar aconteceu. E lanço o desafio (...) de distinguir o verdadeiro do falso. Aliás, podia ser um projecto literário escrever um livro inteiro para ser lido como uma “história verdadeira”(...) pretensamente “baseado em factos reais”, mas onde tudo, ou quase tudo, fosse inventado.”“- Seria esse livro menos sincero do que qualquer outro, não estou certa disso. Talvez fosse, pelo contrário, de uma grande sinceridade.”

(Publicado no blog DeusMeLivro)

25 julho 2016

O capitão saíu para almoçar e os marinheiros tomaram o navio - Charles Bukowski


“Acho que as pessoas que escrevem diários e tiram apontamentos sobre aquilo que pensam são uns idiotas. Só estou a fazer isto porque alguém me sugeriu. Como veêm, nem sequer sou um idiota original. O que torna tudo mais fácil. É só deixar correr. Como um cagalhão quente a descer por uma colina.”.

Charles Bukowski.
Um dos escritores mais míticos e profícuos da geração Beat e dos poucos que sobreviveu nas décadas seguintes com a sanidade suficiente para contar a história.
Entre cerca de meia centena de publicações (prosa e poesia), guiões para cinema e artigos diversos, manteve uma influência constante sobre gerações de escritores, que infrutiferamente o emularam ou se “inspiraram”/“homenagearam” a sua obra e estilo inconfundível.
O capitão saíu para almoçar e os marinheiros tomaram o navio (Alfaguara, 2016) colige alguns registos diarísticos referentes ao período entre 1991 e 1993, os anos anteriores à sua morte em 1994, vítima de leucemia.
Acima de tudo, Bukowski apresenta-se como alguém para quem a escrita é o Santo Graal, a sua religião, que o mantém vivo, activo e produtivo.
A sua rotina diária passa obrigatoriamente pela rotina matinal do jogo, das apostas nas corridas de cavalos, entre dias melhores (em que ganha qualquer coisa) e piores, onde personagens inusitadas, como o Louco dos Gritos ou o Olhos Zangados, se intrometem no seu sossego misantropo, de apostas cuidadosas, de tal forma marcado pela pobreza do passado que não consegue ter perdas ou ganhos de monta.
À noite, frente ao computador, aproveita a companhia da música clássica que toca na rádio (a única que suporta e colecciona como uma colecção de cromos de basebol), para pôr a escrita em dia, entre reflexões avulsas, desabafos e algumas tiradas a que, com a mesma satisfação dos tempos áureos, atribui o brilhantismo que merecem.

Sobre a Vida

Esqueçam a humildade do escritor dedicado ao seu ofício ou a análise detalhada do processo de escrita, trabalhado à exaustão durante anos de dedicação à causa. Aqui não há tangas, presunção ou qualquer traço de hipocrisia.
As palavras são-lhe familiares como o ar que respira e recusa-se ceder à facilidade de se repetir e se limitar a corresponder às expectativas, procurando a frase nova e escrevendo quase febrilmente (com as limitações naturais das suas provectas sete décadas), “numa dança com a morte” que insiste em comandar.
A Morte paira na sua mente e na sua Arte, como se adivinhasse a sua proximidade e a consciência apurada dela e de si, aguçam o seu mau génio e alertam-no para a sua finitude.
A velhice, que lhe rouba disponibilidade e acuidade, ainda o inspira a tentar a superação.

“Cada frase é um novo começo.”.

The Laughing Heart, por Tom Waits

Os pedidos inusitados dos fãs, que se introduzem na sua casa sob os pretextos e argumentos mais surreais, como uma peça jornalística ou um ensaio fotográfico, roubam-lhe tempo para a sua “oração” diária, mas divertem-no de sobremaneira, pelo absurdo da fama e pelo retrato óbvio de uma certa obssessão pelo contacto com os “famosos” que representam, como se o talento e a visibilidade mediática se pudessem transmitir por osmose.
O pessimismo reina na sua perspectiva do Mundo, com o cinismo e a ironia que sempre o acompanharam. As reminiscências do passado de glória e pura fanfarronice (embora mergulhado na penúria e na instabilidade laboral constante), são frequentes e trazem consigo a eloquência que só as memórias bem regadas a álcool e outros aditivos são ainda capazes de espoletar.

“O desafio e a glória. A electricidade. Foda-se, a vida era boa, a vida era divertida. Éramos todos grandes homens, ninguém se metia connosco. E para dizer a verdade, sabia muito bem. Álcool e umas quecas. E muitos bares, bares cheios de gente.”

Apesar do ambiente onde a sua escrita floresceu, Bukowski soube sempre manter-se à parte da literatura mais “engagé” com os tempos conturbados que os EUA viviam, principalmente na década de 60 do século passado. A sua opção foi sempre “brincar com as palavras”, mas também urdir um manto protector da realidade, com a qual não se queria misturar.

Sobre a Escrita e a Morte

“Eu não andava à procura de justiça nem de lógica. Nunca andei. Talvez seja por isso que nunca escrevi como protesto social. (...) É impossível fazer uma coisa boa a partir de algo que não existe. Aqueles tipos queriam que eu mostrasse medo, (...) Mas a única coisa que eu sentia era nojo.”.

Os seus dias são animados pelas pequenas epifanias: uma nova sinfonia que nunca escutou, uma inesperada vitória na pista de corridas ou uma tirada certeira nos escritos nocturnos.
Nos bons momentos, para combater a amargura dizia “Quero compreender a vida, a felicidade da vida”. Mas logo em seguida, regressa tranquilamente ao seu lugar seguro: o pessimismo endémico e trocista. “caminhamos em direcção à miragem, desperdiçando a nossa vida como toda a gente.”.
Embora consciente do seu valor, encara a escrita e os seus colegas de ofício com as devidas distâncias e até algum desdém. O seu despretensiosismo crónico e a sua atenção ao que o rodeia impedem-no de sacralizar a escrita, que apelida de irrelevante, e os escritores, verdadeiros “intrujões” pedantes, vivendo frequentemente de uma falsa imagem de liberdade e libertinagem, financiada nos bastidores por rendimentos de “heranças” obscuras  e mães extremosas de bolsos fundos.

“Somos feitos de papel. Existimos graças à sorte, no meio de percentagens, temporariamente. E isso é a parte melhor e a parte pior,  a questão temporal. E não há nada a fazer. (...) Podemos mudar a nossa aceitação, mas talvez isso também seja errado. Se calhar pensamos demais. É preciso sentir mais, pensar menos.”

Como qualquer ser pensante, o americano contradiz-se constantemente. Mas opta por avançar e evitar ceder qualquer espécie de margem ao imobilismo e a inércia, para que tanto a vida como a escrita mantenham o tónus e a imprevisibilidade, deixando o instinto guiar a inspiração. Se (ainda) o consegue ou não, isso já é outra história. Mas tal intento, já depois dos 70 anos, é refrescante e devolve-nos alguma esperança no que existe para além do mofo a que tresanda tanta da literatura e da narrativa biográfica, quase hagiológica, que ainda nos impõem como verdadeira e cool, para aumentar as vendas dos mesmos livros de sempre, reeditados periodicamente, com títulos curtos e capas novas, talvez amarelas, quem sabe.

      “É preciso chafurfar na lama de vez em quando. (...) Depois de ter passado pelo pior,      
       conseguimos escrever de maneira mais feliz e libertadora.”

Cena de "Factotum", baseado no livro homónimo de 
Bukowski,onde se ouve o fabuloso poema "Roll the Dice".

Numa altura em que as referências literárias lhe são já indiferentes, resta-lhe o consolo da rotina - “um lugar onde ir, uma coisa para fazer” - para esquecer ou superar o medo da solidão total e derradeira, da “morte a morder-me os calcanhares”.

“Agora a minha maior influência sou eu”;  “Era bem melhor quando era capaz de imaginar a grandeza dos outros, mesmo quando ela nem sempre existisse”.

Charles Bukowski, o escritor, provou, sem sombra de dúvida, que o mundano, em todo o seu esplendor, pode ser tão literário e poético como qualquer obra do cânone ocidental.
Charles Bukowski, o homem, despe-se e despede-se neste pequeno opúsculo, agarrando-se às derradeiras fímbrias de uma vida e obra já míticas, com a ironia seca, a linguagem livre de preconceitos e o humor deprecatório que fizeram, fazem e farão por muitas décadas as delícias dos leitores.

Nirvana

Não é um epitáfio per se, mas uma pérola inesperada que nos relembra porque ainda vale a pena viver mais, viver melhor, falhar, lutar, vacilar, lutar melhor, falhar outra vez, perder e talvez, com sorte e suor e amor e dedicação ao que nos é sagrado, vencer o inevitável Nada final. (perdão Beckett, não é plágio, é inspiração...).

“Que se lixem os deuses, que se lixe este jogo.”

Charles Bukowski venceu, por K.O..
Game Over.

Uma pequena conversa, sem censura

 “Está uma porta aberta algures e estou aqui a morrer de frio, mas não me levanto para a fechar porque as palavras estão a fluir e isso dá-me demasiado prazer para conseguir parar. Mas, porra, é o que vou mesmo fazer. Vou levantar-me, fechar a porta e mijar.
Pronto, já está. Já fiz as duas coisas. Até vesti uma camisola. O velho escritor veste uma camisola, senta-se, olha para o ecrã do computador e escreve sobre a vida. Haverá coisa mais sagrada do que esta? E, meu Deus, já pensaram na quantidade de mijo que um homem produz ao longo da vida? Quanto come e quanto caga? Toneladas. É horrível. O melhor é morrermos e sairmos depressa daqui, estamos a contaminar tudo com as coisas que expelimos. Todos, nem as bailarinas escapam. (...)
Deve ser estranho viver comigo. Para mim é.
Boa noite.”.



19 julho 2016

M Train - Patti Smith


“Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma”.
Coisa nenhuma, para o comum dos mortais, é uma lista de compras ou um recado no frigorífico. Para escritores como Patti Smith, banalidades tornam-se singularidades, com a mesma dignidade narrativa que a morte sentida de uma personagem querida ou de uma surpresa no enredo que o vire do avesso.
Depois do êxito inesperado do fantástico Just Kids (Apenas Miúdos, Quetzal, 2011), M Train (Quetzal, 2016) é o regresso de Patti Smith à narrativa. Ao apuro da linguagem, junta-se uma evocação onírica do seu passado, com enfoque na sua vida familiar e quotidiana, num tom profundamente pessoal.
Numa entrevista recente, confessava a propósito de M Train: “O Just Kids aconteceu porque o Robert Mapplethorpe tinha-me pedido para o escrever pouco antes de morrer. (...) Foi muito planeado. E decidi que o seguinte não seria assim, aliás, seria o oposto. Sem plano, sem história, sem responsabilidade a não ser para comigo mesma. Escrevi o que me vinha à ideia. Daí ter dado o nome M Train, que quer mesmo dizer algo como “o comboio da mente”. Ia para o meu café favorito, todas as manhãs, e deixava que as ideias caíssem no papel, só isso.”
É um livro corajoso, pela proximidade que, aparentemente sem qualquer esforço, tece connosco, os leitores, os fãs, os bibliófilos em busca constante de novas referências e pistas para melhor lermos e nos lermos através da alma generosa de quem se deixa nas páginas partilhadas.
M Train é um longo caderno de apontamentos e notas dispersas, entrecortadas por poemas criados impromptu, trechos literários alheios e inspiradores, discursos rabiscados à pressa em guardanapos, instantâneos da vida e de locais significativos, diários de viagens sem plano antecipado.
A sua estrutura assenta numa rosa dos ventos temática. A Norte encontramos os sonhos, alicerces da sua vida e da sua escrita. Os livros que a acompanham, física e espiritualmente estão a Sul, a Este os cafés que frequenta, perto de casa e Mundo fora, onde cria e se encontra e a Oeste, por fim, as fotos, essenciais ao livro, para fazer corresponder uma referência imagética a passagens centrais.

Fred Smith, o marido de Patti, no dia do
seu primeiro aniversário de casamento
Noutras direcções, juntamos a estes rumos fundamentais as memórias e evocações (com especial destaque para o seu marido Fred Sonic Smith, a quem dedica o livro, e o seu irmão Todd, ambos falecidos cedo demais), as viagens (sempre enriquecedoras e inesperadas, inspiradoras para ela e, por transferência, para nós), os objectos (repletos de simbolismo e encerrando em si pessoas, épocas, lugares) e a escrita, o processo central de criação de um texto novo, capaz de sintetizar pensamentos numa ideia que faça sentido.

“Os escritores e os seus livros. Não posso partir do princípio que o leitor esteja familiarizado com todos eles, mas acabará por ficar familiarizado com os meus? Só posso esperar que sim, pois ofereço o meu mundo numa bandeja repleta de alusões várias.”   

Em forma de recompensa pela paciência do leitor, espectador das suas derivas mentais razoavelmente desordenadas, no final de cada capítulo somos brindados com frases inspiradas, que fazem todo o caminho percorrido até ali valer a pena.
Um desses momentos felizes, condensa o seu sentido do Tempo e da Vida, da literatura e do próprio M Train.

“Tenho vivido dentro do meu próprio livro. Um livro que nunca planeei escrever e em que vou registando o movimento do tempo (...) Revivi momentos que foram perfeitos pela inevitabilidade da sua certeza. O Fred a abotoar a camisa de cor caqui que costumava usar nas aulas de voo. Os pombos a regressarem ao ninho no nosso alpendre. A nossa filha Jesse à minha frente a estender-me os braços.
- Oh, mãezinha, às vezes sinto-me como se fosse uma árvore nova.
Queremos coisas que não podemos ter.Procuramos recuperar um momento, um som, uma sensação. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver os meus filhos enquanto crianças. De mãos pequenas, de pés velozes. Tudo muda. O rapaz já crescido, o pai morto, a filha mais alta do que eu a chorar devido a um sonho mau. Por favor, fiquem para sempre, digo eu às coisas que conheço. Não se vão embora. Não cresçam.”

Com Paul Bowles, em Tânger
Ao contrário de Just Kids, onde a escritora disserta, com alguma ingenuidade e esperança, sobre o passado, aqui o Tempo impõe-se de outra forma. Patti tem pressa em aproveitar a vida que ainda lhe resta, consciente e conformada com o facto de que já foi mais longa. Onde antes procurava um rumo para a sua existência, com a urgência de quem sentia ter uma voz única a partilhar, hoje, menos ousada e mais discreta, essa busca, longe de esmorecer, adaptou-se à realidade imposta pelo peso dos dias e das contrariedades (a que raramente se refere, mas se subentende em cada trecho) .
Longe de ser pessimista, o realismo aqui é escapista, com um pé na fantasia e outro nos nadas do quotidiano, aparente lixo literário, reciclado com o carinho de quem os vive como se de uma grande aventura se tratasse.
“Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma”, mas todos os grandes autores o fizeram em determinada altura. Como sempre na sua carreira, Patti Smith contraria convenções e, com talento e sensibilidade, empresta-lhe a claridade dos dias soalheiros e a densidade das emoções mais recônditas.
Legítima herdeira e testemunha do melhor que o ócio e a solidão (acompanhada) podem trazer a uma mente criativa e inquieta, a americana partilha a sua intimidade, entre o vício do café e das séries policiais, os seus gatos, as experiências mundanas do quotidiano, numa linguagem propositadamente porosa e requintada, a que junta um imaginário onde reverbera em cada sílaba o seu profundo conhecimento literário. E os livros, sempre os livros, e os seus autores, Villa-Lobos, Chatwin, Bowles, Sebald ou Aira, que invoca incessantemente, como personagens que fez seus e recusa deixar fora do alcance da mão e da mente.
Embarcamos no combóio M, da memória, onde somos convidados a partilhar a viagem e com toda a naturalidade, descobrimos como se alimentam as labaredas do Amor e do Saber e, no processo, nos encontramos no Outro e nas pequenas vicissitudes diárias que tornam cada novo dia numa aventura em potência.
Confiante nas suas capacidades, Patti deixa esquecidos os maneirismos de estrela rock e abraça a sua individualidade, os seus gostos peculiares, a sua mundividência, para com eles tecer o seu retrato da artista enquanto anciã, descrevendo a sua viagem por este mundo em mudança, onde o Tempo se transfigura, entre relógios sem ponteiros e viagens repentinas, saltando décadas e ligando eventos remotos, com o espírito livre que sempre alimentou.

O Café ´Ino, que frequentou

O seu tempo presente vive de tempos idos que ainda são os seus, dolentes e contemplativos, no seu palácio da memória, na sua extensa biblioteca, na galeria de cafés que habita e nos túmulos para onde se dirige em constante peregrinação.
A consciência da Morte e o desejo de mais vida.
Uma fantasia? Uma versão da realidade?

“Acredito na vida, que um dia todos nós iremos perder. (...) apercebi-me, muito recentemente, de que terei atravessado uma linha inconscientemente escondida na verdade da minha cronologia.”. “O meu lar é uma secretária. A amálgama de um sonho. O meu lar são os gatos, os meus livros e a minha obra nunca terminada. Todas as coisas perdidas que um dia poderão chamar por mim, os rostos dos meus filhos que um dia irão chamar por mim. Talvez não sejamos capazes de separar a realidade do sonho nem de recuperar um estímulo por demais desgastado, mas podemos insistir no nosso próprio sonho de vida e mantê-lo persistentemente intacto.”

Durante a leitura do seu livro, partilhámos sonhos e tempos.
Não é afinal disto que é feita a Literatura?