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07 junho 2016

Kamasi Washington @ Casa da Música (6 Jun 2016)


Chegado à Casa da Música, já Kamasi Washington, o bom gigante com sorriso de Cheshire Cat, esperava os convivas para a festa que se avizinhava, com a amabilidade e disponibilidade que só os grandes conseguem ter, gesto que repetiu, com toda a banda The Next Step, no final do concerto, em pleno Bar dos Artistas.
A generosidade foi presença permanente durante o espectáculo. A entrega, energia e o virtuosismo irmamente distribuído por todos os músicos, inexcedíveis até ao derradeiro instante, contribuíram para uma memorável sessão de longas e emocionantes jams, intercaladas pelo carinho do público e pela comunicação constante vinda do palco.
Infelizmente, o som podia ter sido melhor. Parecia demasiado estridente e com um volume exagerado, com ambas as baterias sem qualquer isolamento e as teclas pouco audíveis ao longo do espectáculo. Detalhes que em nada beliscaram uma noite inesquecível de Jazz e celebração.
Foi frequente observar a lotada Sala Suggia em momentos de contemplativo silêncio, perante o puro poder que recebiam de Kamasi e da sua família musical e de sangue. Todos os músicos partilham vida, palcos e estúdios desde a adolescência.
O seu pai, com a clássica flauta transversal e o sax tenor, trouxe um travo melódico da geração anterior, de Hubert Laws ou Pharaoh Sanders. O contrabaixo de Miles Mosley foi protagonista por inúmeras vezes, literalmente com um simples estalar de dedos ou um toque numa pedaleira, trazendo o instrumento para o séc. XXI e projectando-o para um futuro onde tudo é possível, excepto uma nota ao lado.
A dupla de bateristas Ronald Bruner Jr. e Tony Austin foi incendiária e absolutamente infalível, verdadeiros timoneiros do barco de luxo que são os The Next Step, modelando os ritmos conforme a inspiração mandava ou a improvisação pedia, controlando na perfeição o jogo de intensidades e cambiantes que cada solo imprimia à execução do impecável alinhamento.
A vocalista Patrice Quinn, voz angelical e poderosa, brincou graciosamente com as oitavas sempre que solicitada, com destaque para a inevitável “The Rhythm Changes”, que fechou o concerto numa passada rápida e incontrolável.

Um pouco da história de The Epic e "The Rhythm Changes" ao vivo

O alinhamento imitou o álbum, abrindo hostilidades com esse portento chamado “Change of the Guard”, dedicada ao malogrado Austin Peralta. Antecedido duma bateria em ritmo marcial, que desemboca na melodia de sopros imediatamente reconhecível, ouvimos pela primeira vez as teclas discretas de Cameron Graves, cujos solos mais longos ficaram para o final, mas aqui se espraiou em devaneios multi-rítmicos, ainda em aquecimento para o combate que começava.
“Re Run Home”, com nova introdução vocal, é um regresso ao passado, onde o jazz ainda se inventava, mas com os dois pés no futuro, pela intensidade e frescura de arranjos e execução, como se a música estivesse a ser criada naquele instante preciso.
A improvisação prolonga-se, sem pressa, e já 40 minutos passavam quando chega a homenagem à Avó Henrietta, “Henrietta Our Hero”, numa toada mais suave, temperada pela flauta do patriarca Washington e pela voz de Patrice Quinn.
O mano Miles Mosley tomou o palco em seguida, com uma improvisação entre o hiphop e o rock, contrabaixo transmutado em máquina de ritmos, guitarra e violoncelo, tocando e cantando o seu original “Abraham”.
Depois de uma espectacular batalha de baterias, em que o resto da banda aproveitou para retemperar forças, “Askim” reduziu o palco a cinzas e nem se deu pela falta dos coros e da orquestra da versão de estúdio.

"Askim"

“One more?”, perguntou Kamasi depois do longo aplauso e do regresso à boca de cena. Foram duas mais e o encore terminou com um supersónico “Impressions”, do pai do saxofone como hoje o conhecemos: John Coltrane.
O concerto de ontem na Casa mais não fez do que relembrar-nos porque The Epic (Brainfeeder, 2015) é um dos melhores álbuns deste século.
A música é genuina, sem o pretensiosismo e exibicionismo que tantas vezes ainda rodeia o Jazz e os seus praticantes, tornando-a assim abrangente e acessível, sem que tal signifique abdicar do rigor técnico e da linguagem que o torna um estilo tão amado, quase um século depois da sua explosão por terras do Tio Sam.
O público, à espera de ser conquistado, compreende e naturalmente deixa-se levar.
O Jazz voltou a estar na moda. Deixou de ser pertença de uma elite que colecciona artefactos como troféus e concertos como quem pratica a filatelia, para voltar a ser interpretado como nunca devia ter deixado de ser: livremente, com espaço para crescer e desenvolver ideias, para além das leis do mercado e de pré-concepções datadas, de que os consumidores só ouvem músicas de 3 minutos e, de preferência, com o máximo de acordes e compassos familiares.
hiphop deixou para segundo plano os samples e voltou a ser tocado ao vivo, apoiado no Jazz e nos seus músicos, tornando mais desafiante e excitante cada novo evento, que assim se torna único e irrepetível, como outrora o foram os concertos de Miles, Coltrane, Pharaoh Sanders ou Sun-Ra.
Brainfeeder, com o visionário Flying Lotus na sua liderança, tem sido exemplar nessa mudança de mentalidades e educação de públicos, músicos e mercados.
Kamasi tem essa aura de prodígio de outros tempos mas, filho do fim do século anterior, é muito mais consciente da mudança dos tempos e dotado do talento para adaptar a histórica linguagem jazística ao público que lhe chega, sedento de alguma profundidade na Arte, incessantemente divulgada, por todas as formas que lhe permitem estar “ligado” ao Mundo.
Kamasi Washington não é apenas mais uma voz no coro progressivamente indistinto da música contemporânea. É pura criatividade e ousadia. 
The Epic é só o começo.

O concerto épico, com orquestra e coros

04 maio 2016

Jack DeJohnette - Casa da Música, 3 Maio 2016


Não é frequente ter diante de mim uma lenda, que me formou como ouvinte e musicófilo e que, com a sua criatividade e técnica, contribuíu de forma indelével para o progresso da Música.
Privilégio maior é assistir ao seu envelhecimento saudável e digno, editando constantemente novos trabalhos discográficos e desafiando as suas próprias capacidades, com a insatisfação própria dos génios humildes.
Jack DeJohnnette consta desse panteão por mérito próprio. Partilhou (e partilha) palcos com quase todos os grandes do jazz, como Miles Davis, Keith Jarrett, Dave Holland, Chick Corea ou Herbie Hancock, criando repertório inevitável para qualquer músico ou fã do Jazz.
Na noite em que a Casa da Música se encheu para o receber, trazia como programa a apresentação do seu novo álbum de piano-solo (Return, a editar em Abril pela francesa New Velle Records, exclusivamente em vinil), estendendo o seu requinte nas baquetas às 88 teclas do piano de cauda.



A solidão do piano revelou-se inspiradora para o americano, que deixou para segundo plano o novo álbum, do qual tocou apenas três músicas (“Ode to Satie”, “Silver Hollow” e “Ponta de Areia”), optando, para deleite do público, por um alinhamento recheado de clássicos, que incluíu John Coltrane, Miles Davis e Oliver Nelson.
O toada que imprimiu ao piano balançou entre a clássica melancolia lenta e repleta de silêncios e a redescoberta entusiástica do instrumento que, por influência parental, desde a primeira infância fez seu.
Embora a espaços tenha faltado alguma chama interpretativa em composições que, originalmente, a têm de sobra, como a fabulosa “Stolen Moments” desse álbum obrigatório de Oliver Nelson chamado The Blues And The Abstract Truth, o balanço foi extremamente positivo.
A imediatamente reconhecível “I Love You Porgy”, no arranjo que DeJohnette fez questão de creditar a Bill Evans, foi um dos momentos mais belos da noite, com a melodia respeitada e a improvisação simples e certeira do americano.
Os “trunfos” ficaram guardados para o final do concerto e o encore. Desafiando o público a reconhecer a música que tocava, ofereceu à Casa o clássico da MPB “Ponta de Areia”, com que termina o seu novo álbum, da autoria de Milton do Nascimento e eternizada pela voz de Elis Regina (ouçam a versão no concerto de Montreux).



Depois dos aplausos, pediu “one more” com um sorriso traquina, como se da sua estreia em palco se tratasse e faltasse mostrar um truque novo. Às teclas trouxe “Now´s The Time”, música de Charlie Parker, em que um Miles Davis de muito tenra idade começava a impôr o seu sopro como voz incontornável. 
Faltava ainda a despedida.
Depois de novo pedido do músico, surgiu “Nayma” em todo o seu esplendor, antecedida de uma introdução bem abstracta e aventurosa, para depois desembocar, tranquila, no mar que são as notas urdidas pelo guru Coltrane.
A nova encarnação do DeJohnette foi uma revelação. Pela serenidade e curiosidade com que aborda o piano, pela generosidade no alinhamento e na comunicação com o público, foram 90 minutos para recordar. Return é um disco a não perder.

Alinhamento
Ode to Satie (DeJohnette)
Stolen Moments (Oliver Nelson)
Will O' The Wisp (Manuel de Falla, arr. Gil Evans & Miles Davis)
Silver Hollow (DeJohnette)
I Love You Porgy (Gerswin)  
Central Park West (John Coltrane)
Flamenco Sketches (Miles Davis)
Ponta de Areia (Milton do Nascimento)
Encore
Now´s The Time (Charlie Parker)
Nayma (John Coltrane)

25 fevereiro 2014

Bill Callahan na Casa da Música


Bill Callahan é um daqueles seres enigmáticos que raramente despontam numa indústria musical cada vez mais cristalizada e previsível, um náufrago voluntário que desiste da bússola e se agarra ao que tem e ao que encontra na sua ilha para sobreviver. Fascinante na sua persona pública é o facto de a sua Arte ser a única forma de o (tentar) conhecer, já que as suas entrevistas, entre o silencioso e o monossilábico, pouco contribuem para que formemos uma imagem concreta de si. Involuntariamente (ou talvez não), este recato contribuiu para a aura que hoje o rodeia, tornando-o numa espécie de último estertor de uma América musical verdadeira e íntegra, à imagem de outros que o antecederam, como Cash, Newbury ou Kristofferson, que o próprio celebra na gigante “America!”, hino nacional alternativo, irónico e mordaz, onde escalpeliza tudo o que o atrai e repele na federação que o viu nascer.
Bill cimentou a sua mundividência musical com um paciente trabalho de artesão, de tentativa e erro, aperfeiçoando durante décadas uma ideia base: a redução das letras ao mínimo para, em seguida, as abraçar sem as sufocar com uma melodia unificadora. Nos dias de hoje, o seu trabalho é puro despojamento, silêncio(s) e calma, espaço para as letras respirarem. Como próprio confessava há uns tempos: “There’s so much chaos in life, I think I make music to make things feel calm and sane, to define something, to bring some meaning into it—it’s a real peaceful thing to me.”
Os álbuns mais recentes (principalmente desde Woke on a Whaleheart (2007)), onde Bill Calllahan definitivamente se reinventou, refinaram essa fórmula ao nível do deleite, com o toque de Midas de três almas suficientemente empáticas para transformarem as suas ideias em realidade: Neil Hagerty (criador dos arranjos), John Congleton (produtor) e Brian Beattie (mistura e produção). A solidão ficou para trás, no estúdio, na vida e em palco.



Quando o ouvimos à nossa frente, a magia materializa-se. Sem que se desvaneça a música de palco, um qualquer vinil de música hispânica, o quarteto entra em palco, com a imagem de um pôr de sol no ecrã. “The Sing” entra de mansinho, pé ante pé, sem a distracção do violino. Mais um dia na vida de uma pequena vilória perdida é a imagem que nos ocorre e cedo nos damos conta da bela banda que acompanha o músico. “Javelin Unlanding” mantém-nos a bordo, navegando o Dream River (2013), com a guitarra de Matt Kinsey emulando na perfeição a libertadora flauta do original e as mãos despidas de Adam Jones fazendo as vezes baquetas sobre as peles da bateria. Depois do primeiro de repetidos agradecimentos ao longo da noite, seguimos o alinhamento do álbum de 2013 com “Small Plane”, beleza em forma de partilha dos perigos e prazeres da vida, momentos em que sentimos o verdadeiro peso de cada palavra sobre o silêncio solene e reverente de uma Sala Suggia lotada, como se cúmplice de um ritual secreto finalmente revelado.




Do elemento água, levantamos vôo em direcção à obra prima Sometimes I Wish We Were an Eagle (2009), com uma magnífica “Too Many Birds” que arranca o entusiasmo do público e o primeiro de muitos excelentes solos da guitarra do talentoso Kinsey. Seguimos o bando, que atravessa o Atlântico em direcção à “America!”, um dos momentos marcantes da noite, com Bill a tomar a harmónica e fazendo-a soar atonal, com a distorção da guitarra a reinar, à imagem do quadro cínico e ácido que nos apresenta de uma federação fundada em contradições profundas, enquanto por detrás de si vemos um quadro de um homem sem face que agarra uma carabina. Pelo meio, Kinsey tenta umas notas do tema principal d´O Padrinho, para depois Callahan regressar à harmónica, qual pioneiro bêbado e sem fôlego.





Depois de agradecer a generosidade portuense, que incluirá jantar e bebidas noite dentro, “One Fine Morning” relembra-nos ao que ali viemos, hino à evasão e insegurança nos dias do futuro, ilustrado por um esquisso de uma asa delta em carvão, com todos os seus detalhes. Os ritmos tornam-se a espaços arritmias, as letras de um rigor matemático percebem-se em cada sílaba, imensas, banhadas por novo solo que sobre elas paira recusando pousar. Uma tourada em câmara lenta invertida ilustra com uma deliciosa ironia “Ride My Arrow”, letra pulsante e urgente, sob o disfarce da calma das guitarras.
The real people went away...” e gritos involuntários, misto de alegria de ouvir “aquela” música e incentivo para que seja inesquecível, fazem-se ouvir. “Drover” é um dos hinos da carreira do americano, acordes abertos e uma letra inesquecível que só poderia ter saído daquela mente brilhante, com um sabor quase mitológico, evocativo dos fantasmas dos E.U.A., ranchos, gado, luta violenta por cada novo pedaço de terra, como se a história da conquista do oeste fosse reduzida a um haiku. “Spring” é primavera de destroços, pedaços de luz que a natureza já não é capaz de fazer chegar a uma alma em conflito interior, que encontra a verdadeira tranquilidade apenas nos braços da mulher amada. 



Os blues ainda são uma das pechas mais notadas da carreira de Callahan, mas também isso foi reparado, com uma cover fabulosa de um dos grandes criadores da música americana, Percy Mayfield, autor de hinos como “Hit the Road, Jack”. “Please Send Me Someone To Love” encaixa na perfeição no seu repertório, letra simultaneamente jocosa, irónica e espiritual, com uma melodia repleta de inflexões. Os tempos não rimam e a formalidade das letras é desconstruída pela já brincalhona harmónica. Todos os elementos da banda solam, para depois acompanharem o solo de Bill, finalmente sentado, guitarra ao colo, como se estivéssemos na sala de estar da sua casa no Texas depois de um jantar de amigos.
Com “Seagul” regressamos ao Dream River, jogo de aliterações e ritmos que nos conduz lentamente ao final de um concerto de sonho. “Dress Sexy At My Funeral” foi o olhar de esguelha para um já longínquo 2000, elegia sarcástica, carregada de memórias que guardamos no baú para momentos “especiais”, um dos grandes temas de uma carreira ímpar. "Winter Road" foi a primeira despedida depois uma longa e intensa jornada, simples e cinemática, carregando o simbolismo das verdades que apenas confessamos ao espelho, para que não passem por ingenuidade.
O encore não se fez esperar e trouxe uma pérola chamada “Rock Bottom Riser”, da sua anterior encarnação como Smog. A água omnipresente e e metáfora cantada de um garimpeiro que se afunda lentamente num rio lamacento, arrastado pela corrente inclemente e pela ilusão do brilho do ouro no seu fundo, para finalmente ser salvo pelos que ama, com o negrume dos acordes menores e a luz dos sentimentos maiores.




Bill Callahan demonstrou a quem quis ver, em cerca de duas horas de entrega inexcedível, que a generosidade na Arte não se mede pela quantidade de palavras utilizadas para a descrever ou descodificar, mas antes pela forma altruísta como, em cada obra, se deixa um pedaço de si. Sem jogos de luzes, metáforas rebuscadas ou pedaleiras repletas de efeitos especiais, resta apenas a palavra, o silêncio, a música e o sentimento. Basta isto para nos fazer felizes.
Obrigado Bill.

20 dezembro 2013

Anna Calvi @ Casa da Música - Uma diva para o séc. XXI


Anna Calvi é uma diva. Pequena em tamanho, mesmo com os seus enormes stillettos,vermelho sangue na camisa e nos lábios carnudos, em palco transfigura-se assim que soa a primeira nota. Um voz possante, carregada de dramatismo e vida(s), perfeita para as letras poéticas e confessionais que jorram dos seus discos.
Revelada ao Mundo em 2011, o álbum de estreia homónimo garantiu-lhe reconhecimento imediato, pelo poder que revelava em cada melodia, como se de repente recuassemos a tempos imemoriais em que a globalização era inconcebível e a música era peça fulcral na criação de verdadeira Arte. Ao vivo, se dúvidas houvesse de que estamos perante um talento singular, estas rapidamente se desvanecem.
Acompanhada de um trio de excelentes músicos, que se vão revezando entre teclas, guitarra e baixo, com uma bateria impecável a marcar o seu pulsar, a britânica eleva-se naturalmente, sem a facilidade dos truques das "palminhas" ou de falsas empatias, fabricadas em laboratório para reacções imediatas. A música fala por ela, sem espelhos nem fumos difusos. Com um repertório repartido entre os seus dois registos de estúdio, facilmente descortinamos a qual dos álbuns pertence cada música.
Com "One Breath", Anna dá-se ao luxo de recuperar o fôlego, deixando respirar as letras e jogando com as dinâmicas de "attack & release" com uma mestria renovada, trazendo o silêncio e as mudanças rítmicas perfeitamente ensaiadas para uma actuação sem mácula, que soa natural e fluída como um rio que, inexorável, se encaminha para o mar. Onde "Anna Calvi" era visceral e explosivo, "One Breath" revela- se quase tântrico e lânguido, particularmente ao vivo, onde nos deleitamos com o virtuosismo e talento vocais e instrumentais desta artista única.
O público portuense, estranhamente contido e silencioso, parece respeitar quase religiosamente a dimensão operática do rock que emana do palco, aguardando paciente o termo de cada música para se manifestar nas suas cadeiras. Não estamos decididamente num festival ou num qualquer estádio. Aqui a pirotecnia fica a cargo da pedaleira modesta e do incrível aparelho vocal de Calvi, incapaz de falhar, mesmo quando parece caminhar na corda bamba entre notas impossiveis ao comum dos mortais.
Os singles de apresentação dos seus álbuns abrem com chave de ouro o concerto, com um som magnífico emanando do sistema da Casa da Música e preparando o público para a intensidade que se seguia.
"Sing to Me", uma das mais belas canções de amor de 2013, evoca os fantasmas de Bristol, com os Portishead bem presentes no minimalismo da melodia e nos ecos esvoaçantes dos coros reproduzidos nas teclas. Ao jogo de escondidas que é "Cry", em que somos apanhados desprevenidos com uma explosão de riffs, segue-se uma das mais aguardadas da noite e "First We Kiss" não desaponta. A alegria esfuziante do primeiro beijo roubado transparece ingénua e perfeita como todos os grandes momentos o devem ser.
Com "Carry Me Over", as influências minimalistas presentes em "One Breath" tornam-se incontornáveis, com o vibrafone a tomar o protagonismo, tocando em loop hipnotizante, perante o silêncio quase atónito do público, ansioso pelo ataque da guitarra feroz que chegou em todo o seu esplendor, num momento em que o estúdio ficou a milhas daquele palco.
Só, com um foco sobre si e a sua inseparável Telecaster, Calvi sussurra-nos ao ouvido o hino definitivo da paixão desenfreada. O Boss ficaria orgulhoso de encontrar a sua "Fire" vista do lado feminino: sedutora, intensa e inesquecível.A caminho do inevitável encore, "Desire" e "Love Won't Be Leaving" são meros instrumentos para os solos improvisados surgirem da guitarra, numa torrente que desmente o mito de que não existem boas guitarristas e pretexto para um curto e merecido descanso.
De regresso a um público rendido que aplaude de pé, Anna presenteia-nos com uma viagem ao deserto, a fazer lembrar um Ry Cooder entalado entre Paris e Texas com uma guitarra( sem ) slide, para depois se decidir por Paris, com uma pungente versão da "Jezebel" de Piaf, com tanto de salero como de rock puro em cada acorde.
No final, o mar. " Rider to the Sea" é uma melodia incontornável do alinhamento de Anna Calvi em qualquer canto do Mundo. Masterclass condensada em dois minutos de virtuosismo e contenção, com ela somos bafejados por algo que nos transcende, por muito que a ouçamos uma e outra vez, mas é uma mera introdução para o final apoteótico que foi "Blackout", letra de escuridão e presenças espectrais tornada luz e redenção nos tons garridos que melodicamente transporta. Um simples " goodbye and thank you" bastaram para nos fazer regressar à noite gélida que nos aguardava.
Anna Calvi é uma diva, o que nos tempos de hoje poderia parecer um excesso de linguagem. Felizmente não é o caso. Para além de uma imagem carismática, exsuda originalidade e talento nas suas composições e letras, algo que, nestes tempos em que um "twerking" na altura certa, um bom patrocínio e alguns impropérios na redes sociais garantem um lugar na lista de personalidades do ano, não é despiciendo. Pode parecer cliché, mas hoje ser fiel a si próprio e ter integridade(s) é quase suicídio artístico. É refrescante perceber que ainda há quem se esteja nas tintas para todo este ruído e seja abençoada com a capacidade de partilhar o seu "silêncio" mais íntimo. Essa é a essência de uma verdadeira Diva, hoje, ontem e amanhã.

Anna Calvi @ Casa da Música 16/12/2013:

Suzanne and I 
Eliza 
Suddenly 
Sing to Me 
Cry 
First We Kiss 
I'll Be Your Man 
Piece by Piece 
Carry Me Over 
Fire 
Desire 
Love Won't Be Leaving 

Encore:
Bleed Into Me 
Jezebel 
(Édith Piaf cover)

Encore 2:
Rider to the Sea 
Blackout 

29 abril 2012

Mr. Blacc comes to town


O público lotava a Sala Suggia da Casa da Música e a expectativa era palpável em cada comentário e olhar, para onde quer que nos virássemos.
Entra em palco o quinteto de cordas "The Grand Strings" e sem deixar que esmoreçam por completo os aplausos, ataca "Adiós Noniño" de Piazzolla, versão reduzida e optimizada, captando os momentos altos e universalmente reconhecíveis desta composição.
Ao público surpreso não restava senão deixar-se enlevar no que prometia já ser uma noite de sonho e aplaude reconhecido e já rendido à qualidade dos músicos que tinha pela frente.
"Aquecidas" as hostes, entra em cena a estrela Aloe Blacc.
Impecavelmente vestido, como é seu apanágio, com uma aura de tempos idos da Motown e da Stax, aparentemente anacrónica, noutra circunstância e em qualquer outro artista da mesma área musical, risível ou até pretensiosa, mas que a noite confirmaria adaptar-se, perfeita como uma luva.
A comunicação com a plateia foi uma constante, enquadrando músicas e letras, como um preacher ou um MC deslocado para uma cerimónia solene.
A ambiência criada por Miki, violinista e autor dos arranjos clássicos, confere à obra de Blacc uma densidade e um poder que escapa aos seus discos. Ouvimos cada palavra e nota como se pela primeira vez falassem connosco. As barreiras de estilo e gosto são esquecidas e recebemos avidamente aquela voz quente e impecável, eco de outros tempos, cantando os nossos eternos desafios, vitórias e derrotas.
A cerimónia cresce e a voz torna-se timidamente uníssono sussurrado entre os fiéis, reverentes para com a solenidade das cordas, dos arranjos magistrais e da voz inspirada do Father Blacc.
O seu pai espiritual e artístico, Bill Withers, é relembrado com uma música que lhe dedica.
O Rei da Pop é então evocado, uma espécie da última ceia adivinhada pelo público ao primeiro acorde de uma "Billie Jean" reinventada, mas não menos eficaz e certeira.
Anunciava-se o final apoteótico.
Standing ovation
Longa, das que fazem doer as palmas das mãos e estender um sorriso de orelha a orelha.
Três regressos ao palco depois, o inevitável encore com a canção mais catchy e pop do seu repertório "Loving you is killing me".
A enorme Sala Suggia convertida em corpo e alma, únicos e imensos.
Momentos que se fazem história diante dos nossos olhos.
Música também é Religião. E alimento para a Alma.
Nesta eucaristia contem com a minha presença assídua e devota.

(Ficam as minhas 2 favoritas.A 1ª na Alemanha.A 2ª na nossa Casa.)