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12 junho 2016

NOS Primavera Sound - Dia 3


O último dia do NOS Primavera Sound 2016 foi de balanços e de curadoria pessoal (só para usar um termo mais na moda), que se revelou certeira e compensadora.
As bandas e os horários em cartaz prometiam duas noites bem opostas: uma mais calma e mediática (com french touch, rock tuga “armado ao pingarelho” mas mais gasto do que as piadas do Herman José, explosões longas e reiteradas no céu ou batalhas abstractas, que só quem está no palco tem pachorra para aturar por mais do que dez minutos consecutivos) ou mergulhar de cabeça nas melhores esperanças da electricidade que se vai ouvindo por estes dias.
Sem querer parecer quadrado ou saudosista (mas evidentemente sendo-o), pergunto-vos: lembram-se daqueles tempos, provavelmente na adolescência, em que a Música ainda tinha algum tipo de impacto emocional e físico? Chegado ao Parque com essa ideia persistente, segui o instinto. Ignorando escolhas mais óbvias, deixei a novidade e a possibilidade de divertimento puro decidirem o meu percurso.

Resumindo desde já o que ainda suportei do percurso-“alternativo”-que-foi-principal-para-a-maioria, para que os leitores mais desprevenidos possam ler desde já o esperado destas crónicas:
- Air foram uma sombra triste do passado que ajudaram a moldar. Quem, como eu, já os viu no seu melhor, por exemplo, no Sudoeste de 2004 (saudades de quando era mais do que uma gigantesca discoteca ao ar livre), com uma actuação memorável, só pode suspirar de lamento por a idade lhes ter sido tão inclemente. Nem os grandes sucessos óbvios chegaram para salvar a face. Facilmente se poderá argumentar (como o faz Vitor Balenciano AQUI) que nem todos os concertos têm obrigatoriamente que ter uma sonoridade festivaleira (ou seja, um som cheio, marcado, com batida forte e sem grandes nuances). Mas para escapar a esse cliché, Arte, classe e bom gosto são primordiais. PJ Harvey conseguiu-o com mestria e distinção. Os Air falharam redondamente.
- Os Chairlift chegaram em versão serviços mínimos, contando que a fama que os precede mundialmente chegasse para fazer esquecer qualquer falha. Limitaram-se a demonstrar cabalmente a desaquação da sua presença no palco principal. Cass McCombs, só para citar um artista que actuou no mesmo local e horário, criou um ambiente memorável de recepção à grande maioria dos festivaleiros que chegava ao recinto no dia anterior, com o seu rock relaxado, a beber na americana e no folk, e a sua voz quente de deserto. O airplay não deve nem pode justificar posições privilegiadas. Desinspirados, cinzentos e monocórdicos, foram o pretexto perfeito para aconchegar o estômago com um bela sandes de presunto e queijo da Badalhoca.
- Explosions in the Sky trouxeram a mesma fórmula de sempre ao palco Super Bock. Construção calma e segura, peça a peça como um puzzle, até ao apogeu final, volume apontando o céu com a mesma calmaria ritmica e o dobro da intensidade sónica. É bom, sem dúvida. Mas quem vê um ou dois concertos dos americanos (como é o meu caso), já os viu a todos.
- Batles são uma banda de referência. Virtuosos para além de qualquer crítica, o seu desempenho instrumental é imponente e praticamente sem falhas. Com o filho do histórico Anthony Braxton e o baterista de Helmet na mesma banda, música de qualidade é o mínimo exigível. Mas, por vezes, isso não chega e ontem foi o caso. O risco que os espectáculos com grandes músicos normalmente oferecem é a sensação de o público estar a mais, porque completamente arredado do que se vai passando em palco, como se assistisse a um ensaio de garagem de uma lenda do improviso. É memorável sim, mas para quem está na mesma frequência daqueles génios, o que não foi o caso. 
- Os Linda Martini são um dos grandes triunfos do marketing dos últimos anos em Portugal, uma fraude musical que todos conhecem, mas ninguém tem coragem de apontar, porque não é fixe dizer mal de uma banda que está na moda e dá uns bons “gostos” no Facebook dizer que se é fã, mesmo quando se pensa o contrário. O interessante é este tipo de raciocínio nem na puberdade fazer grande sentido, embora compreensível, por pressão social e ausência de segurança nos gostos e nas tendências. Porém, esse sentido evapora-se quando, perante a óbvia clonagem que fazem At The Drive-In, Sparta, Sleather-Kinney ou Mars Volta, a que juntam “letras” terríveis em português, a crítica não é capaz de apontar que “o rei vai nú”, álbum após álbum de fórmulas gastas, repetidas ad nauseum. Junte-se a isto uns pozinhos de presunção e snobismo, com amuos por não serem cabeças de cartaz em festivais portugueses, e temos a receita para o desastre, perdão, sucesso.
Querem uma reportagem do concerto deles? Procurem noutro freguesia, sim?



O Palco. (sim, ponto apenas, ex-ATP) e o Palco Pitchfork foram os meus portos de abrigo na noite fresquinha do Parque.
Car Seat Headrest foi um belo arranque para o melhor cartaz do Palco Pitchfork até ali. Banda na berra nos últimos tempos, graças ao seu recente álbum Teens of Denial (Matador, 2016) e ao seu anterior Teens of Style (Matador, 2015), este último com uma produção mais caseira e low-fi, o rótulo indie fica-lhes a matar, principalmente ao vocalista e mentor do projecto Will Toledo.
Típico rapaz americano, apesar de desde cedo ser o “geek” da escola, em vez de comprar uma arma na internet e massacrar os colegas, optou pela terapia por via da arte e deixa a pele nas letras e músicas que toca.
Com pormenores bem interessantes ligados à sonoridade mais psicadélica, a banda deixou já de ser promessa, para se afirmar como projecto a seguir com atenção no futuro. Temas como “Vincent” e “Drunk Drivers/Killer Whales” são garantia de que este é só o início auspicioso de uma carreira fulgurante.



Os Drive Like Jehu, com a sua atitude “vai tudo abaixo e não fazemos prisioneiros”, deixaram bem assente ao que vinham quando o vocalista Rick Froberg se dirigiu ao público ironicamente com um “Hope you like this. If you don´t, there´s a lot of other things to see”. Percursores do algum do melhor hardcore que os noventas do século passado testemunharam, juntamente com bandas seminais como os Fugazi, regressaram em 2014 e mantêm-se (radio)activos desde então.
Trouxeram ao Porto um alinhamento bruto e seco, a passar em revista temas chave como "Hand Over Fist" ou “Head Start to Purgatory”, onde as sementes do math-rock, hoje tão popular, já explodiam nos seus riffs inflamáveis. Uma pedrada no charco, com direito a crowdsurfing e moche como é da praxe.
Depois de uma passagem rápida por Titus Andronicus, onde afortunadamente ouvi uma excelente versão do hino dos Ramones “Blitzkrieg Bop”, passei por Air, de que rapidamente desisti, e depois de afogar as mágoas em sumo de malte, regressei para A R Kane. Sem saber o que esperar, perante a total ausência de referências que deles tinha, deparei-me com um pop rock mais sereno e apostado nos tons mais escuros e nas notas mais abertas, com um toque etéreo que foi perfeito para a chegada da noite intensa que se aproximava.



Ty Segall and The Muggers foram donos e senhores da última noite do NOS Primavera Sound. A síntese perfeita entre o poder do rock de garagem mais pesado e a festividade, que só um verdadeiro bobo da corte como Ty Segall consegue, mesmo com música aparentemente mais “séria”.
Extremamente comunicativo e sempre com um disparate pronto a vociferar, banda e público foram “vítimas” do seu carisma pré-trintão. A música, essa é de primeira. O alinhamento apontado ao mais recente Emotional Mugger (2016, Drag City), não esqueceu “Finger” do fantástico Melted (2010, Goner Records), “The Feels” e “Manipulator” do álbum homónimo de 2014. “Thank God For The Sinners” foi o hino não oficial do festival e uma versão de “LA Woman” dos The Doors fechou com chave de ouro um concerto épico.
Um dia chegará ao palco principal, mas ainda não foi desta.



Sobrou ainda tempo para assitir ao que restava do concerto do seminais Shellac que, apesar de terem tocado em todas as edições do NOS Primavera Sound, desde que aterrou no Parque da Cidade do Porto, inexplicavelmente nunca tinha escutado.
Que maravilha foi constatar que, ao contrário dos AIR, a idade também pode ser garante de divertimento garantido, de música desafiante e soberbamente tocada.
Diante de mim, tinha o génio por detrás de quase todos os grandes álbuns que interessam das últimas décadas. Steve Albini, 53 anos, a tocar como se tivesse 20 anos e a vida pela frente, feliz da vida, descontraído e a malhar naquelas cordas com a pujança e elegância de quem sabe exactamente o que faz.
Tanto miúdo imberbe que ainda agora começa a tocar e pensa ter descoberto a pólvora, sem sequer perceber que o que toca já foi mais que gravado e regravado e nada é realmente novo, faria um favor aos seus futuros ouvintes se ali tivesse estado, com uma câmara e um bloco de notas.
Tive a felicidade de ouvir uma versão completamente alucinada de “Killers”, uma tradução rock de uma luta entre uma facção que se quer divertir e outra que quer acabar com a diversão. Obviamente, ganha a diversão. Seguiram-se em catadupa “Billiard Player Song”, “Wingwalker”, “The End of Radio” e “Watch Song”, entre ecos de gargalhadas absurdas e linhas de notas e de texto improvisadas naquele momento, que foram a despedida perfeita para um dia em que o risco de apostar no desconhecido valeu cada segundo.
80000 pessoas (mais de metade estrangeiras) não podem estar enganadas, quando escolheram o NOS Primavera Sound para passarem um final de semana calmo, repleto de boa música, boa comida e uma paisagem deslumbrante, com o conforto do espaço amplo para circular livremente e excelentes condições de higiene e salubridade.
De 8 a 10 de Junho de 2017, está garantida a repetição desta versão gourmet do festival que Barcelona celebrizou, e lá estarei para dizer que tal foi.

Até para o ano.

NOS Primavera Sound - Dia 2


Independentemente do que hoje suceda nos quatro palcos do Parque da Cidade, o 2º dia do NOS Primavera Sound 2016 gravou certamente na memória de muitos milhares a explicação para a genuinidade que ainda conserva.
Por quanto tempo resistirà à massificação de que os seus congéneres padecem? Cabe à organização e a nós, melómanos e fãs deste ninho de beleza natural e musical, zelar para que este carácter tão único perdure por muitos e bons anos.
Pintado de contrastes e momentos marcantes, o dia 2 da versão portuguesa do Primavera Sound foi daqueles que constará na galeria dos inesquecíveis.
Não são muitos os festivais que podem gabar-se de terem, no mesmo dia, dois dos grandes músicos das últimas décadas: Polly Jean Harvey e Brian Wilson. E com eles, uma catrefada de emoções que cada um traz consigo ao entrar no Parque, entre a expectativa de ver a “sua” música finalmente tocada e as memórias tornadas essência dessas e de outras melodias.
O colorido psicadélico e festivo dos Animal Collective e o deslumbramento dos efeitos especiais durente o concerto dos Sigur Rós, cederam lugar ao seu negativo musical e imagético, com PJ Harvey e Beach House a darem a primazia ao negrume e incontestada prioridade à música e letra de cada composição, sem truques nem aditivos.
Pura Arte, dirão alguns. Uma seca e uma desilusão dirão outros, à esperando mais electricidade. Também foi para isto que se fez o 25 de Abril, como diz o povão.
O concerto do dia foi um ceremonial negro e hipnótico encenado pela britânica. Com ela, uma espécie de selecção do resto do Mundo musical (obrigado José Reis), com ícones como Mick Harvey, John Parish, James Johnston e Terry Edwards, tornaram o concerto numa masterclass musical, com solos e devaneios para todos os gostos.

"The Wheel"

Trajes pretos da cabeça aos pés, iluminação reduzida ao mínimo essencial (com predominância para as luzes alvas, em contraste com a escuridão circundante) e um cenário a simular um muro maciço de granito. Foi neste parco e simbólico contexto cénico que o álbum Hope Six Demolition Project (Island, 2016) foi tocado quase na íntegra, com todo o seu dramatismo.
A dimensão política, contestatária e, simultaneamente, elegíaca e espiritual que atravessa o novo registo discográfico, é evidente e resulta na perfeição ao vivo. A interacção com o público deriva precisamente do desempenho da banda, quase matematicamente exacto na execução do alinhamento, como se de um ritual milenar e austero se tratasse. A haver cenário onde a frase certa ou as sempre tão desejadas palminhas seriam perfeitamente acessórias, este concerto seria o caso paradigmático. 
A predominância da percussão, com duas baterias e com todos os músicos a tocarem alternadamente um ou outro tambor, contribuíu ainda mais para este pendor ritualístico.

"Let England Shake"

 “Chain of Keys” abriu a cerimónia. A banda entrou em fila indiana, como uma marching band de Nova Orleães, ritmo marcial. PJ vinha no sax, imperturbável e poderosa como sempre.
A guerra, o pó, a triste condição da mulher em pleno séc. XXI, está tudo lá.
O inconfundível riff de “Ministry of Defence” trouxe uma das melhores faixas do novo álbum, com todos os músicos entoando a letra em uníssono e um solo de sax de tirar o fólego de Terry Edwards.   
E por aí fomos, sempre com Hope Six, até “Let England Shake” deixar o público em delírio, com a sua introdução ao piano. As incursões ao resto da discografia de Polly Jean foram cirúrgicas e incluíram “The words that maketh murder”, “The glorious land”, “The wheel” e “To bring you my love” e a espectacular versão de “50ft Queenie”, um vislumbre da festividade, acidez e ironia da sua música.
Aos poucos, o ritmo serenou novamente e quando o muro granítico por detrás da banda começou a descer, todos sabiam que o final se aproximava e não haveria direito a encores.
O ciclo fechou-se, com a banda, novamente reunida na boca de cena, entoando a capella o velho espiritual negro “Wade in the Water”, uma réstea de esperança na Primavera de destroços que partlhou magistralmente com o público português.
Bryan Wilson, embora já com as suas provectas sete décadas e picos, fez-nos a vontade e deixou-nos ouvir o seu Pet Sounds, que festejou recentemente 50 anos.
Depois de algumas faixas introdutórias, velhos êxitos como “Fun, Fun, Fun” ou “I get around”, finalmente chegou a esperada recriação do álbum histórico e todos rejubilaram.
Música como esta faz parte da nossa herança genética, pelo que, mesmo perante a incapacidade de identificar uma qualquer canção, todos a sabem de forma quase instintiva, como no caso de “Sloop John  B” ou “God Only Knows”, e a dançam e cantam como se de um milagre se tratasse.

"God Only Knows"

Com outro fundadores dos Beach Boys em palco (Al Jardine), e um conjunto excelente de músicos e vocalistas, o álbum foi reproduzido com fidelidade, o que nem sempre resultou em termos de espectáculo, visto tratar-se de um conjunto de canções bastante introspectivo e melancólico, faltando talvez um extra de intensidade instrumental para que o momento fosse perfeito. Mas esse instantâneo, quase surreal, de ter diante de nós um pedaço de história, já ninguém nos tira. Obrigado Brian.
Na área do rock e seus derivados, destacaram-se os sempre fantásticos Dinosaur Jr. com o deus dos riffs J Mascis a espalhar virtuosismo em cada tema, e os seus companheiros de viagem Lou Barlow e Murph a garantirem o suporte vital para que Mascis pudesse voar. Tivemos direito a uma cover incrível de “Just Like Heaven” dos The Cure e depois demos um salto ao palco Super Bock, onde as Savages iniciavam o seu concerto com “I am Here”, retomando o namoro que tÊm com Portugal desde a sua génese.

"Just Like Heaven" (cover The Cure)

Um concerto enérgico e sem concessões, com a andrógina Jehnny Beth a liderar público e banda, com invectivas constantes e interacção certeira, que desembocou numa dedicatória sentida ao público português, via “Fuckers”, que revelou ter sido concebida três anos antes, precisamente no Parque da Cidade, como uma homenagem e uma recordação ao público que sempre as apoiou.
Os Mudhoney, que muitos só conhecem via covers pelos Nirvana, no célebre e póstumo Unplugged in New York, mostraram que o grunge sempre foi bem além do trio liderado por Cobain. Com uma actuação viva e directa, sem tangas nem palavras a mais, “Touch Me I´m Sick” bastava para justificar a sua presença por terras tripeiras.

"Touch Me I´m Sick"

Mas o palco principal fechou com os Beach House, retomando o negrume deixado por PJ Harvey pouco antes, mas de modo mais inesperadamente acutilante.
Poucos contariam encontrar um alinhamento tão pouco cor-de-rosa como o dos americanos nas primeiras horas de hoje. Com a ajuda de uma bateria bem alta e de um segundo teclado, complementando o de Victoria Legrand, o som esteve frequentemente na margem entre o audível e o puro feedback, deixando para o calor do lar e o anonimato dos mp3 o som mais limpo, monótono e monocórdico dos registos de estúdio, o que me pareceu uma excelente opção.

"Take Care"

Com um casaco negro de capuz a cobrir-lhe os longos cabelos que, de quando em vez, soltava para um saudável agitar de cabeça, Victoria foi soturna e festiva, mas sempre parca em palavras e doce nas vocalizações. O receio de um espectáculo curto dissolveu-se quando anunciou que tocariam um alinhamento completo a pedido da organização e em boa hora o fizeram, porque valeu cada segundo.
Fã de algum do seu trabalho, fui arrebatado pela intensidade inaudita que composições como "Silver Soul", “Space Song” ou “Take Care” atingiram, com o ritmo extremamente bem marcado da bateria a substituir a tradicional caixa de ritmos, o que fez toda a diferença, para um concerto com uma assistência de largos milhares que, bem depois da 1h30, ainda enchiam o relvado.
A despedida sentida com um “keep being sensitive.” e “you´re beautiful” pareceu, mais que sincera, um sinal de profunda comunhão, porque por aqui, a música vive-se com a intensidade dos momentos inesquecíveis e o público português tem uma fama a manter.

25 março 2013

Masterclass de hiphop soul



Dois anos depois do seu último concerto no Porto, os Orelha Negra encontraram no seu regresso triunfal à Invicta uma excelente sala totalmente esgotada do Hard Club, que os aguardava ansiosamente em ambiente de celebração. 
Uma hora e meia de concerto soube a pouco para colmatar essa ausência que se tornava já demasiado longa. O quinteto apresentou um alinhamento renovado, juntando a alguns inevitáveis clássicos como "A Cura" ou "M.I.R.I.A.M.", algumas delícias do seu segundo registo como "Bala Cola", "24/7", "Polaroid" e "Viva Ela" (com um trabalho fabuloso do Fred na bateria) e incursões no novo Mixtape II, o álbum fresquinho, já disponível em diversas versões por essa net fora, com reinterpretações de músicas do segundo álbum, acompanhadas por um quem-é-quem dos melhores vocalistas e MCs portugueses da actualidade como Mónica Ferraz, Capicua e Valete ou o americano Amp Fiddler. 
O ambiente electrizante que criam desde a primeira nota é constante e contagiante e a máquina move-se com uma fluídez que não julgavamos possível num colectivo que, nos registos de estúdio, se alimenta vorazmente das sonoridades características do hiphop.
Ao vivo, a banda não necessita de vocalista(s) para injectar alma nas melodias que conhecemos e repetimos incessantemente nos nossos gadgets e o poder da bateria do Fred é o perfeito metrónomo para uma sonoridade surprendentemente orgânica e una, impecavelmente equilibrada entre o scratch de primeira do Cruzfader, os samples e os beats disparados pelo MPC do Sam the Kid, o baixo maravilha do Francisco Rebelo e as teclas talentosas do Diogo Santos, que substituiu na perfeição João Gomes, actualmente em digressão com Ana Moura por esse Mundo.
Sem quaisquer pausas entre as músicas, a experiência torna-se ainda mais intensa e a cumplicidade que se sente nos pequenos esgares e sorrisos entre os cinco transparece na forma aparentemente fácil como parece que assistimos à criação de músicas de raíz, tal é a vitalidade com que nos chegam. O segredo? A capacidade de fundir bom gosto e talento ímpar no uso, em tempo real, dos samples, beats e scratch com um motor soul de alta cilindrada.
Como bónus para as apresentações ao vivo, os Orelha Negra brindam-nos com o que eles singelamente apelidam de medley, em que, com o seu toque de Midas, juntam à festa convidados tão especiais como o "Sure Shot" dos Beastie Boys, "I put a spell on you" do Screming Jay Hawkins, "Yegelle Tezeta" do Mulatu Astatké, "Otis" de Jay-Z com Kanye West ou a mítica "Todos Gordos" dos portuenses Mind da Gap, confirmando apenas o que todos já sabiam: para além de talentosos, trazem na bagagem um repertório que excede em muito o que se poderia esperar de qualquer outro colectivo da mesma área musical.
Os Orelha Negra são únicos em qualquer parte do Mundo e ao vivo superam-se de uma forma incrível.
O Mundo é deles. Basta que o queiram. 

19 março 2013

David Fonseca - 10 anos depois

Foto de Ana Alves Guedes

Falar de David Fonseca, pelo menos para este humilde melómano que vos escreve, é recuar mais de uma década aos tempos em que uma banda ainda desconhecida de Leiria lançou, em 1998, uma cover dos Erasure no éter, ganhando pouco depois o Termómetro Unplugged (quando vencê-lo era realmente relevante e era sinónimo de lançar uma carreira) e pôs o panorama musical português a salivar por mais.
Os tempos eram outros, definitivamente. A internet (ainda) não era raínha e senhora da distribuição da música que se ia fazendo aquém e além-mar e a 1ª arte chegava à maioria dos ouvintes pelos meios mais tradicionais: o belo do empréstimo do amigo ou conhecido com gostos similares, o single que passava na rádio ou o álbum, como um todo conexo que vendia os milhares realmente correspondentes aos metais preciosos que, uns meses após o seu lançamento, recompensavam a criatividade dos seus mentores.
Neste panorama, hoje em dia quase risível de tão obsoleto (apesar de ainda tantos na indústria musical se recusarem a admiti-lo), os Silence 4 triunfaram com as suas canções simples, quase ingénuas, num inglês que soava a melodia do flautista da Hamelin para toda uma geração que ansiava por ouvir as suas angústias, amores e desamores cantados por uma música portuguesa que cada vez mais os esquecia.
Entre os quatro leirienses, desde cedo se destacou o seu carismático líder David Fonseca. Autor de quase todas as letras e algumas das músicas mais sonantes do álbum de estreia "Silence Becomes It" de 1998 (sim, já passaram mesmo 15 anos...), com o seu ar cândido e melancólico, foi durante os 5 curtos anos de duração do projecto Silence 4 o amor platónico de muitas adolescentes imberbes (e de outras já com idade para terem juízo) e o ídolo inconfessavel de muitos potenciais homens de barba rija. Recordes de vendas pulverizados, 6 platinas atingidas, um quarto de milhão de discos vendidos e digressões triunfais que percorreram todo o país, consagraram a banda e o futuro parecia promissor.
Mas como quase tudo o que é bom, depois de mais um álbum de estúdio e de um EP, em 2001 fez-se silêncio entre os 4 leirienses. No entanto, David Fonseca tinha ainda muito mais para dizer e fez da sua carreira a solo o caminho para dar largas à sua prolífica criatividade.
Com um percurso cuidado e inteligente, desde o início manteve-se fiel apenas a si mesmo, com uma linguagem pop dotada de muito mais de universal do que propriamente português. Talvez seja este o segredo para, cinco álbuns e dez anos de carreira depois, ter sido capaz de permanecer consistentemente no topo, quer em vendas, quer em popularidade.
A geração que o ouvia no início, acompanhou a sua evolução como músico e performer e o David cultivou sempre essa relação de proximidade e simpatia com os fãs, quer pela música que foi criando (num crescente de complexidade e criatividade, conseguindo dessa forma adaptar-se às mudanças nas preferências do seu público que ia evoluindo e às tendências da pop), quer pela utilização frequente das redes sociais, como forma de obter reacções em tempo real da multidão de anónimos que o segue e de partilhar conteúdos exclusivos e personalizados.

A noite de 9 de Março no Coliseu do Porto foi de celebração dos 10 anos da sua carreira a solo, por onde passaram quase todos os êxitos essenciais, acompanhados de alguns mimos e surpresas para uma plateia que quase esgotou a mítica sala portuense.
Dez anos antes, à meia noite de 10 de Março de 2003, era lançado em 150 rádios simultanemente o primeiro single do seu primeiro álbum a solo "Someone that cannot love".
O seu álbum duplo "Seasons: Rising Falling" (2012) (cuja ideia inicial era ser quádruplo, um álbum para cada estação do ano), é um díptico que procura retratar a vida durante um ano, com todas as suas cambiantes de clima, disposições e ambiências, servindo de ponto de partida e centro nevrálgico de todo o espectáculo.
Durante mais de 2 horas, assistimos à reprodução dessa panóplia de emoções através do jogo de luzes, com uma paleta de cores correspondendo ao que ia sendo tocado, associada a um alinhamento inteligente e cuidado, capaz de manter o ritmo e expectativa até ao final e superando as expectativas dos fãs mais acérrimos e fiéis.
A meio do espectáculo, David senta-se ao piano e improvisa com o público uma música a que chama de "Coliseu", o mesmo que, mais uma vez, consegue que o acompanhe em uníssono.
Um pouco mais tarde, a banda abandona os instrumentos eléctricos e senta-se em circulo, simulando um ensaio. Daí a nada, entoava-se o hino do Verão passado "We are young" dos Fun, como mera introdução para uma versão completamente "despida" de "What life is for", o single de apresentação do álbum mais recente de David Fonseca, que foi lançado através de uma campanha publicitária de uma operadora de televisão.
Enquanto canta "Stop for a minute", David não resiste a conviver mais de perto com o público e desce à plateia com a sua guitarra, para depois subir à tribuna e surpreender novamente com a sua espontaneidade.
Terminado este período de maior intensidade, cai a cortina negra e David surge em palco vestido de Mr. Scrooge antes de se deitar. Sentado ao piano, a pretexto de uma história que envolve uns telefonemas misteriosos, canta para um auscultador telefónico alterado para microfone uma versão de "I just called to say i love you", para em seguida arrancar com uma excelente revisão do clássico dos Nine Inch Nails "Hurt", que termina já acompanhado por toda a sua banda.
Algumas músicas depois, a vontade dos seus fãs expressa via-Facebook é cumprida e David Fonseca presenteia uma plateia já rendida com uma versão mais pop do hino dos Nirvana "Lithium", devidamente vestido com a sua velha camisa de flanela.
Seguiu-se a grande "80´s", que transforma o Coliseu numa discoteca gigante e o regresso para o encore com "U Know who i am" e o final apoteótico, repleto de papéis prateados e balões, com uma "What life is for" em toda a sua pujança pop.

Terminada a celebração, torna-se fácil perceber como David Fonseca se tornou um artista consensual, com tudo o que de melhor essa palavra pode acarretar. A sua estética vincada, apesar de personalizada, tem, desde o início da sua carreira, uma qualidade superior e um alcance que vai dos 8 aos 80 anos. A multidão que o recebeu de braços abertos e vozes afinadas na Invicta foi o retrato perfeito dessa diversidade geracional mas simultaneamente da comunhão em torno de uma música que se sabe manter sempre viva e relevante, o que, em plena era de massificação de tendências e proliferação de imitações de mau gosto, é um achado inestimável. E é nosso.
Venham mais dez, David.

Alinhamento

1 – Under the Willow 
2 – Armageddon
3 – Our Hearts will beat as one II
4 – A cry 4 love
5 – Where are u?
6 – Someone that cannot love
7 – It means i love you
8 – Silent Void
9 – "Coliseu" (improviso com o público ao piano) / The beating of the drums
10 – Kiss me
11 – All that i wanted
12 – It will pass 
13 – Intro c/ We are young (cover dos Fun) / What life is for (ambas em versão acústica)
14 – Superstars II
15 – Stop 4 a minute 
16 – I just called to say i love you / Hurt
17 – At your door
18 – It feels like something
19 - Lithium
20 - 80´s
Encore
21 – U know who i am
22 – What life is for  

19 novembro 2012

Norberto Livre

Norberto Lobo-Mel Azul (Mbari-2012)
Norberto regressou finalmente.
Um porto de abrigo para estes dias frios e sombrios. E infelizmente não falo apenas do inclemente e surpreendente clima invernal.
Privilégio é poder, no intervalo de horas e na melhor companhia, ouvi-lo ao vivo e comparar a experiência com o registo da sua obra em cd, esse formato cada vez mais obsoleto mas ainda tão prático e precioso, principalmente quando se trata de uma cópia personalizada pelo próprio artista.

A actuação ao vivo foi surpreendente embora sem ser uma surpresa.
Passo a explicar.
O artista cresce perante os nossos olhos e os nossos ouvidos.
As colaborações dos últimos tempos têm enriquecido de forma notável o seu som e este concerto reflecte essa mesma evolução.
As frequentes e emocionantes improvisações para-melodia por onde nos conduziu numa setlist onde predominou a ambiência um pouco mais livre e libertadora de "Mel Azul", baralhou as nossas expectativas de um virtuosismo mais estático que a sua música anterior parece sugerir e deparámos-nos com um Norberto mais senhor do seu som e da sua aura quase mística, xamânica, sempre tímido nos agradecimentos e nas respostas às invectivas de um público rendido e expectante, em contraste com a sua exuberância musical e melódica, como se a melhor forma de o conhecer fosse através da guitarra que empunha e não de viva voz.
Com ele, a voz, a expressividade, o sentido de humor e a persona luminosa ficam entaladas entre as madeiras da guitarra, até que generosamente as liberta, com uma entrega que rasga um inevitável sorriso de felicidade contemplativa de momentos dificilmente repetidos.
Os nomes com que baptiza cada melodia são meros detalhes (a que, não despiciendamente, opta por conferir uma saudável e cómica ironia, numa espécie de "who cares" gritado bem alto), já que, de cada vez que ataca as cordas, ouvimos fado, blues, folk, música indiana, música clássica e sons profundos e inqualificáveis, enquadrados apenas pelo coração, porque a razão inevitavelmente fica arredada desta eucaristia.
As composições foram mero pretexto para um recital de liberdade criativa, onde os hegemónicos mantras sonoros em crescendo e diminuendo, regados com silêncios tensos e libertações catárticas de melodia, garantem inadevertidos arrepios na pele e colocam-nos perante uma experiência única, reavivando memórias de dias melhores em que foram a perfeita banda sonora.
Norberto Lobo, naquela noite fria de 6ª feira, sentiu-se em casa no ambiente intimista do Passos Manuel e esse à-vontade reflectiu-se na sua actuação. Cada vez mais improvisa, entrega-se ao sentimento que cada acorde lhe traz e exprime-o cada vez melhor, transmitindo-o com genuinidade, recusando as facilidades da adequação ou de limites formais e melódicos. A música é o momento em que a toca e é isso que o torna tão único e maravilhoso.
Depois vinham as melodias, em torrente, aos pares e aos trios, sem paragens nem concessões. E nós fomos na viagem. E não queríamos que terminasse.
Obrigado a regressar por 2 vezes, fê-lo renitente e, já cansado, fugiu tranquilo com a sua tambura entoando o "Requiem para as abelhas".
Mas o concerto foi muito mais do que mero "Mel Azul". Já não lhe basta a ele nem a nós.
Vejam com os vossos próprios ouvidos. A agenda dos concertos encontra-se facilmente.
(A pedido da Mbari, retirei o video do concerto no Passos Manuel).

O cd novo "Mel Azul" é uma lufada de ar fresco na curta discografia de Norberto Lobo.
Mantendo aquele registo já familiar a quem o segue desde "Mudar de Bina", ensaia novos caminhos menos convencionais a um guitarrista já de si tão particular.
Os acordes são mais abertos, luminosos e as duas composições do seu irmão, Manuel Lobo, são um feliz acrescento à sua sonoridade, conferindo-lhe uma nova densidade e objectividade quase cinemáticas.
Terminados os quase 30 minutos de "Mel Azul", o reflexo quase imediato é repetir a audição.
Porque a viagem é demasiado curta e passa tão rápido pelos nossos ouvidos que receamos ter escapado algum detalhe precioso. E cada nova audição é uma redescoberta do quanto se esconde nas músicas ínfimas em tamanho mas desmesuradamente superiores ao tempo e espaço que ocupam. E não se separam mais de nós. Trauteamos e assobiamos inadvertidamente "Lúcia Lima", "Rua da Palma Blues" ou "Enzo Fought Back" como se fossem nossas desde sempre. Porque passam a sê-lo a partir daquele momento mágico em que as ouvimos pela primeira vez e nos deixamos deslumbrar pela familiaridade com que nos tocam e se acomodam dentro de nós, como toda a boa música o faz.
Norberto Lobo já faz parte daquela galeria de essenciais de qualquer português que ame a música e o quanto de português encontramos nela, contaminada com o que de melhor esse mundo cada vez mais uno e disperso tem para nos mostrar. Norberto traz tudo isso e tanto mais de si a cada novo disco, o que o torna um acontecimento.
Ele anda por esse país triste e abandonado. Ouçam as histórias que tem para contar. São luminosas e repletas de esperança, daquelas que todo o típico português saudosista e deprimido precisa para tornar os dias mais toleráveis. 
Aqui fica o álbum na íntegra.
Partilhem, divulguem, CELEBREM.

16 junho 2012

Noites longas...

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes.

AL BERTO, in SALSUGEM (1978/83), in O MEDO ( Assírio & Alvim, 1997)

11 maio 2012

Um instante feito eternidade

Dias há em que a vida devia parar.
Sobrava Silêncio.
E Música.

Outros há em que a Morte podia adormecer.

Sonhos...

Bernardo Sassetti - O Sonho dos Outros

04 maio 2012

Jamie Cullum vs. Joe Williams

                                                                                     



VS.





Na semana de dia internacional do Jazz, ficam 2 exemplos do dito.
Jamie Cullum é uma estrela do jazz que dispensa qualquer apresentação.
Construíu paulatinamente a sua reputação de animal de palco e grande competência instrumental ao piano, trazendo o jazz para o mainstream com grande respeito pelos mestres, que apresenta ao seu público através das suas covers, misturando a sua veia jazística com clássicos do rock e do pop.
Como todos os músicos de jazz, o seu repertório inclui necessariamente os standards.
No entanto, na música "Get Your Way", segue o método do hiphop e do rap e tendo por base um sample, cria uma nova composição.
O original é "Get Off My Life Woman", retirado de um dos grandes álbuns da história do jazz.
Uma das melhores big bands de sempre, a Thad Jones/Mel Lewis Orchestra, encontra-se com o mais poderoso crooner do jazz americano, Joe Williams.
Como seria de esperar, o resultado é um set divino, com orquestrações e arranjos de uma perfeição quase surreal, como pano de fundo para um vozeirão que parece um tornado.
Uma delícia datada de 1966.

(P.S.: Se alguma alma caridosa por acaso um dia encontrar este álbum, por favor diga-me.Já o procuro há anos...)



29 abril 2012

Mr. Blacc comes to town


O público lotava a Sala Suggia da Casa da Música e a expectativa era palpável em cada comentário e olhar, para onde quer que nos virássemos.
Entra em palco o quinteto de cordas "The Grand Strings" e sem deixar que esmoreçam por completo os aplausos, ataca "Adiós Noniño" de Piazzolla, versão reduzida e optimizada, captando os momentos altos e universalmente reconhecíveis desta composição.
Ao público surpreso não restava senão deixar-se enlevar no que prometia já ser uma noite de sonho e aplaude reconhecido e já rendido à qualidade dos músicos que tinha pela frente.
"Aquecidas" as hostes, entra em cena a estrela Aloe Blacc.
Impecavelmente vestido, como é seu apanágio, com uma aura de tempos idos da Motown e da Stax, aparentemente anacrónica, noutra circunstância e em qualquer outro artista da mesma área musical, risível ou até pretensiosa, mas que a noite confirmaria adaptar-se, perfeita como uma luva.
A comunicação com a plateia foi uma constante, enquadrando músicas e letras, como um preacher ou um MC deslocado para uma cerimónia solene.
A ambiência criada por Miki, violinista e autor dos arranjos clássicos, confere à obra de Blacc uma densidade e um poder que escapa aos seus discos. Ouvimos cada palavra e nota como se pela primeira vez falassem connosco. As barreiras de estilo e gosto são esquecidas e recebemos avidamente aquela voz quente e impecável, eco de outros tempos, cantando os nossos eternos desafios, vitórias e derrotas.
A cerimónia cresce e a voz torna-se timidamente uníssono sussurrado entre os fiéis, reverentes para com a solenidade das cordas, dos arranjos magistrais e da voz inspirada do Father Blacc.
O seu pai espiritual e artístico, Bill Withers, é relembrado com uma música que lhe dedica.
O Rei da Pop é então evocado, uma espécie da última ceia adivinhada pelo público ao primeiro acorde de uma "Billie Jean" reinventada, mas não menos eficaz e certeira.
Anunciava-se o final apoteótico.
Standing ovation. 
Longa, das que fazem doer as palmas das mãos e estender um sorriso de orelha a orelha.
Três regressos ao palco depois, o inevitável encore com a canção mais catchy e pop do seu repertório "Loving you is killing me".
A enorme Sala Suggia convertida em corpo e alma, únicos e imensos.
Momentos que se fazem história diante dos nossos olhos.
Música também é Religião. E alimento para a Alma.
Nesta eucaristia contem com a minha presença assídua e devota.

(Ficam as minhas 2 favoritas.A 1ª na Alemanha.A 2ª na nossa Casa.)



19 abril 2012

Arqueologia - Beastie Boys vs. Jeremy Steig




VS.







Um dos passatempos preferidos cá do burgo é "desenterrar" clássicos e dar-lhes o devido uso.
Quase toda a boa música dos nossos dias tem as suas raízes no passado, sendo raríssima a excepção, apesar de tantas vezes os artistas insistirem no inverso.
Esse regresso ao passado é assumido desde os primórdios e sem complexos no rap e no hiphop, criando-se verdadeiras corridas aos melhores samples e aos originais de onde são retirados, gerando culto em torno dos criadores dos originais. 
Exemplares na arte do sampling são os Beastie Boys, com álbuns, hoje clássicos, como "Ill Comunication" e "Paul´s Boutique", netos do jazz, blues e funk, que reinventaram e actualizaram, criando malhas obrigatórias qualquer DJ set que se preze.
Uma dessas pérolas é "Sure shot", cujo sample base encontramos na faixa "Howlin´ for Judy" do álbum "Legwork" de Jeremy Steig, um virtuoso da flauta jazz que esta música fez merecidamente regressar à ribalta.
25 anos de distância.
Descubram as diferenças.


02 abril 2012

No Éter


Cresci a ouvir este Senhor, pelo menos a partir da idade em que deixou de me chegar o que se ouvia em uníssono em qualquer rádio ou discoteca.
Com ele compreendi a magia da rádio e fiquei contagiado para sempre com o "bichinho" da música e da descoberta daquele som que desafia e abre horizontes.
António Sérgio foi o farol de gerações que o olhavam como um modelo a seguir de integridade, profissionalismo, coerência e bom gosto.
Partilhar com ele horas e horas de madrugada via éter foram um privilégio.
Uma voz cava e hipnótica que nos conduzia pela mão a territórios sonoros que trilhávamos com um sorriso de satisfação e admiração.
Fica aqui um dos melhores exemplos desse caminho ímpar, com a ajuda da sua companheira de vida e éter, Ana Cristina Ferrão, uma rubrica intitulada "Waiting on Waits".
Rádio como já não há.
Pessoal e intimista. 
Original e relevante.

Saudades infinitas...

Para outras pérolas deste calibre, procurar p. f. o grupo Lista Rebelde no inevitável Facebook.


30 janeiro 2012

NO 2011 - Parte 6

Oliver Nelson - The Blues and the Abstract Truth


Oficialmente o álbum que mais ouvi em 2011.
Explicações, apesar de desnecessárias, são bastante simples.
O elenco é assombroso, um quem-é-quem do melhor do jazz.
Oliver Nelson escreveu todos os temas, dirige o septeto e ainda toca sax tenor e alto com uma classe soberba.
Eric Dolphy, com a criatividade e arrojo que sempre o caracterizaram, não deixa os seus créditos por mãos alheias e aqueles sax e flauta voam bem alto.Solos de sonho, desconcertantes mas sempre no tom, como só ele era capaz. 
Bill Evans, pai espiritual de quase todo o piano jazz moderno, discreto mas sempre assertivo e essencial à coesão do septeto. 
Freddie Hubbard, trompetista cuja história se cruza apenas com os melhores, dá o toque de tradição ao som deste clássico com o poder e acerto do seu sopro mágico.
Chambers no contrabaixo e Haynes na bateria são o coração deste organismo vivo, variando cadências ao sabor do ambiente que vão sentindo no ensemble e acertando sempre no clima a dar a cada composição.
George Barrow, o 3º sax, barítono, é o mais desconhecido do septeto mas não menos relevante, dando densidade e a harmonia à ferocidade de Dolphy, fazendo ritmo e solo com a mesma facilidade com que qualquer um de nós respira.
As composições em si são uma delícia. Frescas, inovadoras e recheadas de surpresas rítmicas e harmónicas, ainda hoje soam relevantes e actuais apesar de já terem quase 42 anos.
Foi amor ao primeiro ouvido.
O título é pretensioso.
Mas a sua verdade é bem concreta.

(é avançar já directamente para o 1:28 e depois deixar rolar para o solo do Dolphy...)

19 janeiro 2012

NO 2011 Parte 5

Brad Mehldau-Live in Marciac (2011)

Dificilmente se consegue escrever de forma clara e imparcial quando discorremos acerca de ídolos, porque os sentimentos naturalmente abalroam qualquer ínfima possibilidade de distanciamento crítico.
Tal sucede comigo quando o assunto é Brad Mehldau.
Completo é o adjectivo que me ocorre quando penso na sua carreira e no seu talento.
Um fraseado versátil, sempre personalizado e inconfundível, um repertório quase temerário, bem para além dos standards do Great American Songbook,, que se estende desde a mpb ao pop, ao rock e à chanson française, onde o ponto comum é simplesmente a excelência e uma técnica prodigiosa, chegando frequentemente a sentir-se que toca a 4 mãos e domina simultâneamente dois pianos. 
A influência dos seus estudos de música clássica desde cedo não será alheia a esta integridade artística e a sua criatividade, aliada à forma como todos os formatos da canção naturalmente fluem em cada peça, fazem dele um génio singular.
Assisti a pelo menos 4 concertos seus em terras lusas e nunca dei o meu tempo/dinheiro por perdidos, confirmando em todas as ocasiões tudo o que aqui descrevo.
Este álbum é precisamente no mesmo formato.
Gravado em Agosto de 2006 e editado no ano passado pela Nonesuch, este álbum duplo acompanhado de dvd vem apenas confirmar o que muitos já sabem e poucos têm a coragem de assumir: Mehldau é o melhor pianista de jazz da actualidade e um dos músicos que mais profundamente marcou a história recente da Música, tal como noutros tempos o fizeram Miles, Coltrane ou Jarrett. 
Por aqui passam alguns dos melhores momentos da sua carreira num concerto a todos os títulos memorável. Mehldau em topo de forma fecha os olhos e mostra-nos tudo aquilo de que é capaz, entre originais, standards e clássicos do pop e folk optimizados pela sua leitura.
A cada nota parece querer demonstrar-nos que o jazz pela sua voz, está bem vivo e vem para ficar.
A nós, comuns mortais, resta-nos contemplar e humildes, agradecer a nova prenda que nos deixa.



02 janeiro 2012

O Tubo

Nova rubrica onde partilho as pérolas maravilhosas que o YouTube nos disponibiliza.
Artistas de sempre em topo de forma, artistas de hoje a fazerem história, memórias e outros recantos.
Aqui Stevie Wonder com uma banda fabulosa num programa televisivo na década de 70.

30 dezembro 2011

NO 2011 - Parte 3 e 4

Dois álbuns essenciais do meu 2011 que finalmente terminou.

Frank Sinatra-In the Wee Small Hours

Depois de um início de carreira fulgurante nos anos 40, em que o Swing ainda era rei e a sua classe naturalmente se impôs, a vida andava dificil para Sinatra.
Artisticamente tinha atingido uma fase em que novos estímulos naturalmente se impunham, com os gostos musicais a mudarem e o seu público, mais maduro, sedento de novidades.
A década de 50 anuncia-se penosa. Aproximava-se dos seus 40, novos ídolos atingiam a ribalta e a sua carreira decididamente estagnava, sem quaisquer propostas discográficas ou cinematográficas.
Até que em 1953 tudo muda. Ganha o Óscar de melhor actor secundário e as portas da fama reabrem-se de par em par.
Musicalmente, um executivo da Capitol, seu fã de longos anos, aposta contra todos na sua carreira e assina com ele.
Logo em 1953 grava "Songs for Young Lovers", que sai no ano seguinte juntamente com "Swing Easy".
Em 1955 saíu este fabuloso "In the Wee Small Hours".
Pela primeira vez na história, fruto dos meios de que a recém criada Capitol dispunha, cria-se de raíz um álbum baseado numa só temática, com temas novos em torno da tristeza e da desilusão amorosa, aproveitando o hype do fim da relação tempestuosa de Sinatra com a diva Ava Gardner. Surgia assim o 1º álbum conceptual.
No entanto, o segredo do sucesso deste álbum é bem mais simples: a música em si.
O maestro Nelson Riddle, colaborador próximo durante 20 anos, toma as rédeas de todo o processo criativo e a carreira de ambos nunca mais foi a mesma.
Apesar das reticências iniciais de Sinatra perante o novato Riddle, a química entre ambos em estúdio foi instantânea. Os arranjos cuidadosamente trabalhados e simultaneamente suaves e delicados eram a base perfeita para uma voz que recuperava lentamente o seu poder.
A estética que atravessa toda a obra é o perfeito reflexo da sua mítica capa.
É o álbum do "end of the affair", quando o Amor deixa de ser eterno e se esfuma entre cigarros e whisky velho numa cama de hotel.
Ol´Blue Eyes estava de regresso e não mais abandonou a ribalta até à sua morte.
O álbum abre com este original, que dá o tom a toda a obra prima.



Frank Sinatra - Songs for Swingin´ Lovers

Em 1956, surge o absoluto oposto de "In the Wee Small Hours".
Todo o negrume dá lugar à luz do reencontro com as boas vibrações, a redescoberta das coisas boas da vida.
Aqui tudo é uptempo, com arranjos luxuriantes e faustosos de Riddle, com total liberdade para recriar clássicos como "Makin´ Whoopee" ou "You Make Me Feel So Young" e deixar para a posteridade a versão definitiva de "I Got You Under My Skin".
Onde "In The Wee..." era retrato do fim do amor, "Songs..." deixa-nos na face o sorriso estampado de um primeiro beijo ou da "morning after".
Quando sentimos que, pelo menos por um dia, o universo conspirou a nosso favor, esta é a banda sonora que todos à nossa volta cantam e tocam em playback.
Dois álbuns essenciais para o meu ano.
A minha música preferida é esta.

22 dezembro 2011

NO 2011 - Parte 2

Fleet Foxes - Helplessness Blues

A minha ligação aos Fleet Foxes começou no segundo EP, primeiro numa "major", neste caso a mítica Subpop, tendo depois sido também contratados pela Bella Union (especializada no folk e derivados, que este ano teve a brilhante ideia de reeditar em vinil, para todo o Mundo, as pérolas "Guitarra Portuguesa" e "Movimento Perpétuo" do Mestre Carlos Paredes).
Chamava-se "Sun Giant" (2008) e revelava uma banda que parecia transportada por um Delorean directamente do tempo dos trovadores para o meu mp3.
Sucediam-se os falsetes e as harmonizações, completamente desligados de qualquer moda ou tendência musical. Evocavam algo único e arrepiante nestes tempos em que o imediato e o opulento governam.
O campo, a montanha, a neblina invernal, paisagens imensas de um verde luxuriante...A Natureza em estado puro, sem artifícios.Letras e vozes apontando um Mundo de outros tempos, um folk bucólico que os 60 do século passado esconderam e deixaram morrer.
Seguiu-se o primeiro álbum homónimo, em que a promessa se cumpria, com uma produção mais cuidada e objectiva e os louvores mundiais não tardaram perante tamanha qualidade e consistência.
Em Maio deste ano, após numerosas reformulações e um álbum já concluído em estúdio simplesmente descartado, é mostrada ao Mundo a obra-prima destes Srs..
Com a segurança de terem concluído o melhor álbum que poderiam ter feito, guiados de forma quase obssessiva por Pecknold, os Fleet Foxes de "Helplessness Blues" deixam para trás a capa de trovadores bucólicos e mergulham fundo na alma humana, nos amores e desamores, nas ilusões e desilusões com que a vida inevitavelmente nos confronta.
O resultado é um álbum intenso, íntimo, quase confessional, embora sempre protegido pela conveniente metáfora impessoal, evitando a transparência total para que cada um se reveja em cada nota e palavra.
No processo voraz de conclusão deste colosso, Pecknold perdeu a namorada, afastou-se dos amigos e quase se desfez a banda que tanto felicidade lhe vinha dando.
Tudo isso serviu de "combustivel" que inteligentemente canalizou para a sua arte.
Hoje a banda e os amigos são inseparáveis, talvez mais do que nunca.
Casey Wescott juntou-se à matilha. Multi-instrumentista, trouxe à música dos Foxes a riqueza e a frescura que as canções novas pediam.
A namorada, provavelmente perante a prova de amor que um álbum destes demonstra a quem quiser ver, voltou ao seus braços.   
Pecknold jogou "all in".
E ganhou.
Bom para ele.
Melhor para nós.

10 dezembro 2011

Nos meus ouvidos em 2011 (ou NO 2011 parte I para facilitar)

WHITE DENIM - D

Um daqueles diamantes que incompreensivelmente passou ao lado de muito boa gente.
Com uma carreira consistente nos últimos anos, estes texanos têm crescido muito na sua arte, sem medo de procurar novos caminhos a cada novo álbum.
Por aqui, as portas estão escancaradas à experimentação, à liberdade melódica e lírica.
Os músicos são de calibre superior mas sem vedetismos nem exageros de qualquer tipo.
É rock de garagem, indie suado, versátil, psicadélico por vezes, com mantras trabalhados ao detalhe que descobrimos com um sorriso nos lábios a cada novo acorde.
Cada faixa tem a audácia que uns Radiohead há já algum tempo deixaram para trás e quando achamos que não podem ir mais longe, eles dão novo passo em frente e puxam-nos para o sítio luminoso onde a sua música já chegou.
E partilham connosco um segredo: não é difícil fazer rock. E sabe mesmo bem. 
Dificil é criar rock com sangue na guelra, capaz de ressuscitar os fantasmas dos seus primórdios, que levaram gerações inteiras desafiar convenções e pensar pela sua própria cabeça, coisa impensável hoje.  
Álbuns destes são um privilégio em dias de crise também na música, que se limita a repetir à exaustão fórmulas gastas.E aborrecidas como o raio.
Basta passar por aqui para recarregar baterias.
É grátis.
Thank God.
Espalhem a boa nova.



03 dezembro 2011

Críticas, melhores do ano e outros lamentos

Georges Braque "Woman with guitar", 1913


Por esta altura do ano, começam os balanços em todas as áreas.
Os títulos variam entre o "o melhor de", "best of"e opções mais duvidosas como "veja o que perdeu" ou "recorde o que marcou o ano".
A Música não escapa ao triste padrão.
As omnipresentes estrelas festivas são acompanhadas das irritantes e redutoras estrelas vermelhas e classificações relativamente professorais ou mais profissionais, conforme o público alvo de cada publicação.
Desfilam os nomes relativamente consensuais (e anónimos para a esmagadora maioria das pessoas) em publicações ditas "de referência", simplesmente porque ainda não apareceram outros (e outras) que mudem qualquer coisa para que no fim de contas tudo fique na mesma.
A dita "crítica" é produzida pelas mesmas vozes, ano após ano, inevitável e indesfarçavelmente agarradas aos seus gostos pessoais, cristalizados nos saudosos 80´s e 90´s, em que tiveram alguma notoriedade por estarem nos sitíos mais "in" com as pessoas certas e usaram a mesma gabardina durante anos a fio por ser "fashion" (mesmo quando já há muito não era) ou tocaram numa banda que já ninguém que não eles próprios se lembra de ter passado pelo Planeta Terra, com alguns lamentáveis e extensamente defendidos "guilty pleasures" que em qualquer outra área da cultura seriam ridicularizados às lágrimas, mas aqui no burgo são vistos como "cool" e "old school" e outros estrangeirismos que impressionam os miúdos durante 5 segundos e outros tantos cliques (o tempo que perdem a buscar na wikipedia do seu 3G o significado e história associada a cada um).
A tarefa de captar o "air du temps" da música que fica para sempre ligada ao ano que termina torna-se assim um longo e penoso calvário, com cada publicação a apontar para onde está virada, preocupada em vender e fazer eco do que se vai dizendo no estrangeiro de forma consensual e com a "crítica" evitando (por falta de meios ou simples preguiça/excesso de confiança nos seus vastos conhecimentos musicais) a investigação do que está realmente por detrás de cada música e de quem a faz, pessoalmente, envolvendo-se com a matéria de que fala.
Por estas e por outras razões, há muito que confio mais no meu instinto e no que me faz sorrir ou voltar novamente a cada música para perceber o que me está a escapar do que num qualquer especialista que ouviu centenas de cds e, com uns incentivos das editoras e dos patrões, se limita a debitar o que se espera que debite: uma montanha de palavras vazias que o fazem sentir o rei do mundo mas nunca substituem a sensação da descoberta de um grupo que muda a concepção que temos da Música (e tantas vezes da vida), do folhear de um booklet ou do cheiro de um vinil acabado de estrear.
Um dos grandes prazeres da vida é descobrirmo-nos na obra que alguém deixou para trás como parte de si.
É essa a magia da Arte.
Reduzir essa grandiosidade a classificações padronizadas e simplistas é não apenas um desrespeito por quem deu de si para criar algo novo mas também por quem ainda não conhece essa obra e a quer realmente fazer sua.
Perante tudo isto, do top que por aqui estreio consta o que me fez vibrar nos últimos meses, independentemente da data em que foi criado e sem qualquer ordem cronológica ou hierárquica.

29 novembro 2011

Future Starts Slow

Diz-se que no principio era o verbo.
A mim sempre me pareceu bem mais interessante se fosse a Música.