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10 junho 2016

NOS Primavera Sound - Dia 1


No dia de abertura do NOS Primavera Sound, o Porto brindou os festivaleiros com o seu melhor e mais característico cartão de visita: a “morrinha”, aquela precipitação mínima porém persistente, que sem molhar muito, também não deixa nada nem ninguém completamente seco.
O recinto, invulgarmente cheio para um primeiro dia, numa 5ª feira, em que o cartaz não era especialmente apelativo, talvez tenha no feriado nacional do dia seguinte a explicação para a gigante mole humana que ocorreu ao Parque da Cidade. Ou há mesmo uma massiva base de fãs de Sigur Rós por aqui, de que eu não tenha conhecimento.
Considerações à parte, é já oficial que foi o dia de abertura mais concorrido da curta história do festival portuense.
A banda islandesa foi a protagonista do noite, para fãs e não-fãs (grupo no qual este vosso escriba se inclui). Esperançado numa actuação deslumbrante, que me fizesse esquecer a estridência da voz de Jón Þór Birgisson ou a dolência arrastada das músicas do seu repertório, apresentei-me como um bravo em frente ao palco para a prova dos nove. E não é que me surpreendi?
O repertório foi diverso, percorrendo toda a sua carreira de quase duas décadas. Não me peçam para soletrar letras ou identificar com rigor as músicas, porque a linguagem por eles inventada, somada à minha ignorância da mesma e de outros assuntos relacionados, tratar impossível tal desiderato.
As projecções que serviram de cenário ao espectáculo eram fantásticas, contríbuindo para a criação de uma ambiência verdadeiramente imersiva e envolvente. As imagens, compostas sobre a imagem real dos músicos, emulavam a sua dissolução em partículas mínimas que voavam com o vento, talvez em direcção ao público que não arredava pé e bebia cada palavra e acorde. Fiquei fã? Ainda não, mas com vontade de (re)descobrir o que me possa ter escapado na sua discografia.



Depois de ainda acompanhar o final do alinhamento dos Wild Nothing no Palco Super Bock, com a sua sonoridade a dever tanto a The Cure e seus sucedâneos, esperavam-me os Deerhunter no palco principal.
Para variar das suas aparições públicas mais recentes, foi um concerto impecável, quer no alinhamento quer no som cuidado que vinha do palco.
Bradford Cox, extremamente bem disposto e comunicativo, foi a mascote do grupo, juntamente com um peluche de uma cabrinha que fez as delícias do público e depois compareceu religiosamente nos restantes concertos do dia. Cabrinha a mascote do NOS Primavera Sound já!
“Coronado” não constou do alinhamento, mas Halcyon Digest esteve bem representado com as excelentes “Revival”, “Helicopter” e em especial “Desire Lines”, a penúltima do alinhamento e um dos grandes momentos de ontem, rivalizando apenas com a excelente “Cover Me (Slowly)”, interpretada com toda a distorção e piscadelas de olhos ao shoegaze possíveis, sacando novo trunfo numa bela mão, que foram jogando com toda a calma do Mundo.
Fecharam a actuação com uma excelente versão de “Snakeskin”, do mais recente Fading Frontier (4AD, 2015), deixando a pairar a sensação de que um encore caía mesmo bem.



Julia Holter nas teclas, acompanhada de bateria, violino e contrabaixo, deixou uma boa impressão no Palco Super Bock. O álbum Have You In My Wilderness (Domino, 2015), feito de momentos de pura beleza e sensibilidade, ficou demasiado aquém para o palco de um festival com a dimensão do NOS Primavera, servindo musak para o convívio animado que lotava o espaço diante do palco, entre passas apressadas, regadas a Super Bock e bocas sobre tudo e sobre nada. Um espaço mais intimista e controlado fará as delícias de qualquer amante de boa música.

O melhor da noite chegou com o início do dia da Pátria.
Os texanos Parquet Courts, com o seu rock pincelado de punk e da melhor safra das últimas décadas nesta área, teve o público na mão durante todos os segundo da sua intensa actuação.
Já ia avisado, mas confirmar in loco faz toda a diferença.
Pensem nums Queens of the Stone Age sob o efeito de um Xanax, num Joe Strummer com a cabeça (ainda mais) umas décadas à frente, num Sid Vicious sem tendências suicidas ou num Lou Reed que soubesse efectivamente tocar guitarra e talvez tenham uma ideia aproximada da sua sonoridade. E daí talvez não.
Não se via vivalma quieta e silenciosa, mesmo nas músicas aparentemente mais calmas como “Berlin Got Blurry” do mais recente Human Performance (Rough Trade, 2016), o centro de todo o alinhamento. Tudo soava estranhamente novo e familiar, por vezes na mesma música, o que a juntar a um desempenho sem falhas e pleno de electricidade quase palpável, foi receita certeira para tomar todos de assalto.



Os alucinatórios Animal Collective vieram com desenhos chanfrados, totems estranhos e projecções com todo os espectro de cores disponível à retian humana, para mostrarem que Painting With é perfeito para ser reproduzido em grandes espaços abertos, comunitário e unificador, como tão raramente hoje a música do género mais electrónico é capaz (EDM não é electrónica na minha cabeça...). “Floridada” foi a perfeita estocada final para uma tourada sónica épica servida pelo trio americano, aqui acompanhado por uma bateria.

A noite seguiu para o Palco Pitchfork, onde se esgotaram as forças que ainda restavam, com Red Axes e John Talabot e sus muchachos.

Até amanhã.

07 junho 2016

Kamasi Washington @ Casa da Música (6 Jun 2016)


Chegado à Casa da Música, já Kamasi Washington, o bom gigante com sorriso de Cheshire Cat, esperava os convivas para a festa que se avizinhava, com a amabilidade e disponibilidade que só os grandes conseguem ter, gesto que repetiu, com toda a banda The Next Step, no final do concerto, em pleno Bar dos Artistas.
A generosidade foi presença permanente durante o espectáculo. A entrega, energia e o virtuosismo irmamente distribuído por todos os músicos, inexcedíveis até ao derradeiro instante, contribuíram para uma memorável sessão de longas e emocionantes jams, intercaladas pelo carinho do público e pela comunicação constante vinda do palco.
Infelizmente, o som podia ter sido melhor. Parecia demasiado estridente e com um volume exagerado, com ambas as baterias sem qualquer isolamento e as teclas pouco audíveis ao longo do espectáculo. Detalhes que em nada beliscaram uma noite inesquecível de Jazz e celebração.
Foi frequente observar a lotada Sala Suggia em momentos de contemplativo silêncio, perante o puro poder que recebiam de Kamasi e da sua família musical e de sangue. Todos os músicos partilham vida, palcos e estúdios desde a adolescência.
O seu pai, com a clássica flauta transversal e o sax tenor, trouxe um travo melódico da geração anterior, de Hubert Laws ou Pharaoh Sanders. O contrabaixo de Miles Mosley foi protagonista por inúmeras vezes, literalmente com um simples estalar de dedos ou um toque numa pedaleira, trazendo o instrumento para o séc. XXI e projectando-o para um futuro onde tudo é possível, excepto uma nota ao lado.
A dupla de bateristas Ronald Bruner Jr. e Tony Austin foi incendiária e absolutamente infalível, verdadeiros timoneiros do barco de luxo que são os The Next Step, modelando os ritmos conforme a inspiração mandava ou a improvisação pedia, controlando na perfeição o jogo de intensidades e cambiantes que cada solo imprimia à execução do impecável alinhamento.
A vocalista Patrice Quinn, voz angelical e poderosa, brincou graciosamente com as oitavas sempre que solicitada, com destaque para a inevitável “The Rhythm Changes”, que fechou o concerto numa passada rápida e incontrolável.

Um pouco da história de The Epic e "The Rhythm Changes" ao vivo

O alinhamento imitou o álbum, abrindo hostilidades com esse portento chamado “Change of the Guard”, dedicada ao malogrado Austin Peralta. Antecedido duma bateria em ritmo marcial, que desemboca na melodia de sopros imediatamente reconhecível, ouvimos pela primeira vez as teclas discretas de Cameron Graves, cujos solos mais longos ficaram para o final, mas aqui se espraiou em devaneios multi-rítmicos, ainda em aquecimento para o combate que começava.
“Re Run Home”, com nova introdução vocal, é um regresso ao passado, onde o jazz ainda se inventava, mas com os dois pés no futuro, pela intensidade e frescura de arranjos e execução, como se a música estivesse a ser criada naquele instante preciso.
A improvisação prolonga-se, sem pressa, e já 40 minutos passavam quando chega a homenagem à Avó Henrietta, “Henrietta Our Hero”, numa toada mais suave, temperada pela flauta do patriarca Washington e pela voz de Patrice Quinn.
O mano Miles Mosley tomou o palco em seguida, com uma improvisação entre o hiphop e o rock, contrabaixo transmutado em máquina de ritmos, guitarra e violoncelo, tocando e cantando o seu original “Abraham”.
Depois de uma espectacular batalha de baterias, em que o resto da banda aproveitou para retemperar forças, “Askim” reduziu o palco a cinzas e nem se deu pela falta dos coros e da orquestra da versão de estúdio.

"Askim"

“One more?”, perguntou Kamasi depois do longo aplauso e do regresso à boca de cena. Foram duas mais e o encore terminou com um supersónico “Impressions”, do pai do saxofone como hoje o conhecemos: John Coltrane.
O concerto de ontem na Casa mais não fez do que relembrar-nos porque The Epic (Brainfeeder, 2015) é um dos melhores álbuns deste século.
A música é genuina, sem o pretensiosismo e exibicionismo que tantas vezes ainda rodeia o Jazz e os seus praticantes, tornando-a assim abrangente e acessível, sem que tal signifique abdicar do rigor técnico e da linguagem que o torna um estilo tão amado, quase um século depois da sua explosão por terras do Tio Sam.
O público, à espera de ser conquistado, compreende e naturalmente deixa-se levar.
O Jazz voltou a estar na moda. Deixou de ser pertença de uma elite que colecciona artefactos como troféus e concertos como quem pratica a filatelia, para voltar a ser interpretado como nunca devia ter deixado de ser: livremente, com espaço para crescer e desenvolver ideias, para além das leis do mercado e de pré-concepções datadas, de que os consumidores só ouvem músicas de 3 minutos e, de preferência, com o máximo de acordes e compassos familiares.
hiphop deixou para segundo plano os samples e voltou a ser tocado ao vivo, apoiado no Jazz e nos seus músicos, tornando mais desafiante e excitante cada novo evento, que assim se torna único e irrepetível, como outrora o foram os concertos de Miles, Coltrane, Pharaoh Sanders ou Sun-Ra.
Brainfeeder, com o visionário Flying Lotus na sua liderança, tem sido exemplar nessa mudança de mentalidades e educação de públicos, músicos e mercados.
Kamasi tem essa aura de prodígio de outros tempos mas, filho do fim do século anterior, é muito mais consciente da mudança dos tempos e dotado do talento para adaptar a histórica linguagem jazística ao público que lhe chega, sedento de alguma profundidade na Arte, incessantemente divulgada, por todas as formas que lhe permitem estar “ligado” ao Mundo.
Kamasi Washington não é apenas mais uma voz no coro progressivamente indistinto da música contemporânea. É pura criatividade e ousadia. 
The Epic é só o começo.

O concerto épico, com orquestra e coros

04 maio 2016

Jack DeJohnette - Casa da Música, 3 Maio 2016


Não é frequente ter diante de mim uma lenda, que me formou como ouvinte e musicófilo e que, com a sua criatividade e técnica, contribuíu de forma indelével para o progresso da Música.
Privilégio maior é assistir ao seu envelhecimento saudável e digno, editando constantemente novos trabalhos discográficos e desafiando as suas próprias capacidades, com a insatisfação própria dos génios humildes.
Jack DeJohnnette consta desse panteão por mérito próprio. Partilhou (e partilha) palcos com quase todos os grandes do jazz, como Miles Davis, Keith Jarrett, Dave Holland, Chick Corea ou Herbie Hancock, criando repertório inevitável para qualquer músico ou fã do Jazz.
Na noite em que a Casa da Música se encheu para o receber, trazia como programa a apresentação do seu novo álbum de piano-solo (Return, a editar em Abril pela francesa New Velle Records, exclusivamente em vinil), estendendo o seu requinte nas baquetas às 88 teclas do piano de cauda.



A solidão do piano revelou-se inspiradora para o americano, que deixou para segundo plano o novo álbum, do qual tocou apenas três músicas (“Ode to Satie”, “Silver Hollow” e “Ponta de Areia”), optando, para deleite do público, por um alinhamento recheado de clássicos, que incluíu John Coltrane, Miles Davis e Oliver Nelson.
O toada que imprimiu ao piano balançou entre a clássica melancolia lenta e repleta de silêncios e a redescoberta entusiástica do instrumento que, por influência parental, desde a primeira infância fez seu.
Embora a espaços tenha faltado alguma chama interpretativa em composições que, originalmente, a têm de sobra, como a fabulosa “Stolen Moments” desse álbum obrigatório de Oliver Nelson chamado The Blues And The Abstract Truth, o balanço foi extremamente positivo.
A imediatamente reconhecível “I Love You Porgy”, no arranjo que DeJohnette fez questão de creditar a Bill Evans, foi um dos momentos mais belos da noite, com a melodia respeitada e a improvisação simples e certeira do americano.
Os “trunfos” ficaram guardados para o final do concerto e o encore. Desafiando o público a reconhecer a música que tocava, ofereceu à Casa o clássico da MPB “Ponta de Areia”, com que termina o seu novo álbum, da autoria de Milton do Nascimento e eternizada pela voz de Elis Regina (ouçam a versão no concerto de Montreux).



Depois dos aplausos, pediu “one more” com um sorriso traquina, como se da sua estreia em palco se tratasse e faltasse mostrar um truque novo. Às teclas trouxe “Now´s The Time”, música de Charlie Parker, em que um Miles Davis de muito tenra idade começava a impôr o seu sopro como voz incontornável. 
Faltava ainda a despedida.
Depois de novo pedido do músico, surgiu “Nayma” em todo o seu esplendor, antecedida de uma introdução bem abstracta e aventurosa, para depois desembocar, tranquila, no mar que são as notas urdidas pelo guru Coltrane.
A nova encarnação do DeJohnette foi uma revelação. Pela serenidade e curiosidade com que aborda o piano, pela generosidade no alinhamento e na comunicação com o público, foram 90 minutos para recordar. Return é um disco a não perder.

Alinhamento
Ode to Satie (DeJohnette)
Stolen Moments (Oliver Nelson)
Will O' The Wisp (Manuel de Falla, arr. Gil Evans & Miles Davis)
Silver Hollow (DeJohnette)
I Love You Porgy (Gerswin)  
Central Park West (John Coltrane)
Flamenco Sketches (Miles Davis)
Ponta de Areia (Milton do Nascimento)
Encore
Now´s The Time (Charlie Parker)
Nayma (John Coltrane)

03 fevereiro 2016

Orelha Negra no Hard Club - 30 Janeiro 2016


Foto: Vera Marmelo
Segundo os próprios Orelha Negra, este concerto (e o anterior no CCB), marcado há mais de um ano, foi uma prenda para os seus leais fãs, antecipando notícias ou pré-lançamentos para apresentar o álbum novo em primeira mão. 
Embora o lançamento oficial esteja agendado para a Primavera, as músicas estão concluídas, como o concerto sem falhas pôde confirmar, faltando apenas finalizar gravação e produção.
O álbum foi tocado na íntegra, praticamente sem interrupções, mas infelizmente com reduzida interacção com o público que, tendo esgotado a sala portuense, certamente anseava por um pouco mais de calor por parte do quinteto.
Os momentos mais celebrados ficaram para o final, com acenos a Biggy, Drake e ao inevitável Kendrick Lamar, a darem o mote para “961 919 169”, “Throwback” e “M.I.R.I.A.M.”
Até ali, escutamos com atenção e sem grandes distrações vindas do palco (ou do público) o novo disco, que mantém a fórmula vencedora, resgatando do passado samples clássicos do soul, gospel e funk (arte completamente dominada por Sam e Cruzfader, que junta um scratch de primeira à equação), apenas para os converter no ponto de partida e fiel companhia para a música bem viva que o trio-maravilha Fred Ferreira (bateria), Francisco Rebelo (teclas), João Gomes (baixo) debita como se fossem siameses musicais.
O espetáculo foi morno, desigual no jogo de intensidades e com algumas músicas demasiado longas a fazer temer o pior e a sugerir tímidos bocejos, apesar da excelente execução por parte dos músicos. Faltou a chama que trouxeram na sua última passagem pela Invicta, em que a casa quase caíu.
Dos Orelha Negra versão 2016, podemos seguramente esperar um álbum mais maduro, sem a excitação e impulsividade dos anteriores registos, substituídas por um maior requinte instrumental e continuidade entre cada faixa, formando um todo, em que a ausência de qualquer melodia intermédia quebra a integridade final.
Venha o álbum desejado. O sucesso é garantido e o Porto aguarda o vosso regresso.

26 janeiro 2015

Norberto Lobo @ Culturgest Porto - 16 Janeiro


No meu primeiro concerto do ano, experimentei assistir in loco à nova viagem sónica do prodígio Norberto Lobo.
Apesar de alguma turbulência, cheguei a bom porto, na companhia de aproximadamente uma centena de pessoas que lotaram a pequena sala portuense.
Sem surpresas, encontrei um guitarrista mais liberto do jugo e do jogo de ritmos e dinâmicas melódicas que vem sendo a sua imagem de marca, que tanto evocam o saudoso Jack Rose como o mítico John Fahey, a música tradicional portuguesa ou o folk, quando ainda fresco e relevante.
O New York Times e outras publicações inevitavelmente rendem-se às suas qualidades instrumentais e criativas, mas o seu caminho prossegue parelelamente a este crescendo de visibilidade, com viagens, residências artísticas e parcerias que vêm tornando a sua música muito mais do que puro virtuosismo.
Norberto, no novo Fornalha (three:four records, 2014) que apresentou quase na íntegra (e podem escutar AQUI), abandona a sua (e a nossa) zona de conforto e atira-se com unhas e dentes às maravilhas da electricidade e da improvisação.

Fornalha (2013, three:four records)
O resultado foi um concerto em que nem tudo correu às mil maravilhas, com alguns "pregos" à mistura e feedbacks involuntários, que intensificaram ainda mais o seu exercício de liberdade, como uma longa inspiração para oxigenar os nossos cérebros.
Em todos os seus concertos, o guitarrista tem por hábito ter a melodia em forma de canção como mero ponto de referência, a que regressa a espaços para nos manter a seu lado no percurso que vai explorando ao longo de cada trecho, que frequentemente aglutina em espaços de longos minutos sem paragens .
Neste caso, o formato canção cedeu lugar à diatribe improvisatória, que ocupa a esmagora maioria do espaço já exíguo (aproximadamente 32 minutos) de Fornalha.
Propositadamente, Norberto deixa-nos sós, larga-nos a mão e voa quando a agitação é maior, deixando-nos a braços com a tarefa de reencontrarmos o caminho de regresso a casa. Chegados ao destino, reencontramo-lo, sempre pacato e imperturbável por fora, mas dominado por um turbilhão de emoções que só a sua música revela a quem a quiser escutar com ouvidos "de ver".
Os efeitos da sua nova pedaleira são outros e usados com mestria trazem novas dimensões às composições, soando como se a sua guitarra se multiplicasse e transmutasse em melotron, ou violoncelo ou violino. A alma, essa é a mesma que atravessa toda a sua obra.
A identidade mantém-se intacta mas a guitarra transfigura-se, talvez mais próxima do que procura para si: uma câmara de eco de emoções, plástica e fléxivel como plasticina.
A técnica do ritmo e do dedilhado assoma por vezes, intacta e impressionante, mas outra(s) voz(es) possuem o seu instrumento, etéreas mas presas ao âmago do que significa suplantar guitarra e presença: música pura, sem filtros, ditâmes ou pré-concepções.
Norberto é cada vez mais ele mesmo, espontâneo e descomprometido. Embarca sem medo em variações infinitas sobre as mesmas notas, desmonta-as e reconstrói-as em minutos com mestria, como se quisesse mostrar-nos que já descobriu do que são feitas e presentear-nos partilhando essa revelação: uma nova linguagem.
Não conheço um músico que deixe tanto no palco e traga o mundo na guitarra como Norberto. Paredes só em disco, infelizmente.
Ontem fui (novamente) feliz por estar perante perante tanto talento e generosidade.

07 abril 2014

Cicero: a nova música brasileira veio ao Porto

 
O Brasil dos dias de hoje é o exemplo acabado de um País que aparenta começar a cumprir-se. Com grandes eventos internacionais a impulsionarem a economia, prosperidade para dar e vender, uma população cada vez mais consciente e inconformada com os seus males endémicos e uma cultura próspera e exemplar, o seu universo musical, naturalmente diverso, pelos vários Brasis que encontramos naquela terra abençoada, é imensamente próspero e criativo, com uma propensão natural para a reinvenção da tradição sambista, da MPB e da celebrada bossa nova, que se estende a áreas tão diversas como o pop, o rock ou mesmo o hiphop e a electrónica, com aclamação internacional e exportação facilitada pela qualidade indiscutível dos registos discográficos que se vão sucedendo a um ritmo impressionante. O séc. XXI tem sido particularmente generoso nesta área, com uma cena mais "indie" (perdoem a ausência de criatividade) a florescer paulatinamente. Escutamos ainda os ecos da voz e violão de Cartola, Jobim, Caetano ou Tom Zé, mas prevalecem agora as vozes tímidas e despudoradamente confessionais e pessoais, contrariando a viciante alegria e optimismo daquele povo com a melancolia dos dias naturalmente dolentes e reflexivos de quem ainda procura o seu lugar num Mundo enganadoramente "social" e tenta manter o pé numa maré quase insuportável de milhares de novidades diárias.
Cícero é um de muitos que vem mostrando ao Mundo esta nova vaga da música brasileira, encimada por timoneiros tão bem conhecidos em Portugal como Silva, Mallu Magalhães e o seu mais-que-tudo Marcelo Camelo (que dá uma mãozinha no álbum mais recente de Cícero) ou Rodrigo Amarante (ambos dos defuntos Los Hermanos, pioneiros e praticantes convictos dessa quebra com o mainstream brasileiro que a sua "Ana Júlia", para mal dos seus pecados, tão bem representou). Com os seus dois discos Sábado (2013) e Canções de Apartamento (2011) disponíveis para download no seu site oficial, o carioca, que hoje festeja 28 anos, é o exemplo paradigmático da forma bem mais simples e livre que esta geração tem de encarar a música, criativa e financeiramente. “Tento usar o som, as palavras e a música para entrar na minha própria sensibilidade, porque acredito que só assim vou conseguir atingir a sensibilidade do outro. Esse é o meu objectivo artístico”, confessa ao Sol em entrevista recente, revelando também o seu desconforto em lucrar com a venda directa dos seus discos, praticamente caseiros e por isso de baixo custo, preferindo manter o controlo criativo das suas composições e apostar nas apresentações ao vivo. Com a morrinha tão típica das noites da Baixa a inutilizar qualquer tentativa de manter um aspecto seco, o corpo pedia já o calor do Passos Manuel e uma cerveja fresquinha. À hora marcada, a pequena sala esgotou. As palavras no ar e os sorridentes silêncios anunciavam que Cícero Rosa Lins tinha fãs na plateia, certos de que não dariam o seu tempo por perdido.
Chegado ao palco, trazia consigo os companheiros de viagem transaltlântica e colaboradores próximos desde o 1º álbum Bruno Schulz (programação, teclas, acordeão) e Bruno Giorgi (baixo). Como bónus, os portugueses Alexandre Bernardo (guitarra) e o grande Fred Ferreira na bateria completavam o quinteto. Este último, impecável como guardião do som coeso de toda a actuação, tornou-se também, segundo o próprio Cícero, um guru espiritual para o Porto, descrevendo-o como um público que "presta atenção" e tem que se ir ganhando. A previsão foi certeira. O alinhamento trazia os 2 álbuns, com algumas adaptações sónicas essenciais ao formato concerto. O lo-fi ingénuo dos discos cedeu, dando maior espaço às composições e amplificando as intensidades, texturas e silêncios latentes nas melodias, para que a experiência fosse mais intensa.A entrada com pés de lã, com as primeiras músicas, ainda meio a medo, suaves na sua incompletude, trouxeram a importância dos beats minimais e repetitivos a toda a estrutura melódica, com a bateria discreta e voz rouca de Cícero a mostrar as letras em toda a sua poesia.

"Vagalumes Cegos" trouxe o primeiro despertar da banda. Em toada de trava-línguas infantil, canta-se a espuma dos dias e o que dela fica como importante e inalienável, as vitórias conquistadas na cumplicidade dos pequenos gestos. "Vem cuidar de mim/Vamos ver um filme/ter dois filhos/Ir ao parque/Discutir caetano/Planejar bobagens/E morrer de rir(...)Vamos esconder nosso cobertor/E vamos viver sem escolta ", letra que desemboca numa libertação de energia nas peles da bateria e na distorção das guitarras, que acordaram a sala do marasmo que ameaçadoramente se instalava.
style: normal;">"João e o pé de feijão" esconde na sua simplicidade em loop o pessimismo existencialista das letras e a variação de intensidades animou novamente o público e deixou-nos a melodia no ouvido. "Duas quadras" vai buscar o título e estrutura da letra à poesia. À herança do samba resgata o nome e o ritmo, fundindo-o com uma bossa versão 2014 e uma letra minimal que resulta na perfeição, como um cocktail bem mexido de alegria e melancolia, chamando Cartola para a festa com uma frase da sua emblemática "Preciso me encontrar".style: normal;">As aliterações e jogos gramaticais de "Ela e a lata" remetem-nos para o tropicalismo clássico de Gilberto Gil ou Caetano e o piano infantil de "Açucar e adoçante" mascara os destroços de uma relação que termina da pior maneira. Por esta altura, o público ainda não demonstrava o entusiasmo típico de quem está a gostar e Cícero não desarma. "Não consigo entender se estão gostando ou não. Podem bater palmas quando quiserem.", convida simpaticamente.style: normal;">"Porta, retrato" soou a "Weird Fishes" com umas caipirinhas bem servidas, desde a linha de baixo ao ritmo desconstruído na bateria. Wado, outro protagonista destacado da nova música brasileira que celebrávamos, viu a sua bela "Zelo" recordada na voz rouca de Cícero, colaborador no seu recente Vazio Tropical (2013).
 
A celebração colectiva que tardava chegou com a inevitável "Tempo de Pipa". Bem mais intensa ao vivo, inspirada e inspiradora, de melodia simples e contagiante, tem uma letra que involuntariamente cantamos como se nossa desde sempre. As palmas repetidas e a canção entoada bem alto trouxeram o calor do outro lado do grande Atlântico.
Honrado e surpreso por ver a sua música tão festejada, Cícero embalou numa bela 2ª parte, guardando os trunfos para o final. "Vou criar um lugar escondido/Para fazer meu recital/Quando o carnaval passar/Quando esse escarcéu passar". "Laiá Laiá" tem uma das frases mais belas do repertorio do brasileiro e ao mesmo tempo retrata o dificil processo criativo entre o buliço interminável da gigante "Cidade Maravilhosa". "Ponto Cego", com a exclamação tão querida a todos nós "É sexta feira, amor", é uma delícia de composição. Letra com versos curtos e ritmados, como se a língua dançasse entre as sílabas e uma melodia evocando tanto a canção francesa com o que de mais tribal e festivo o Brasil tem para nos oferecer, foi recriada eximiamente pelos músicos em palco e pelo público que correspondeu finalmente à sua entrega, rendido ao génio do pequeno grande carioca. Um grande single que, juntamente com "Tempo de Pipa", já devia há muito ter inundado esse éter cada vez mais standardizado. 
 
Depois de perguntar se nos importávamos que tocasse uma bossa, Cícero entrega-nos a bela "Pelo interfone", recriação e evocação irónica e doce do clássico "Dindi" de Jobim, usando com algum humor mascarado de romantismo os clichés desse estilo tão brasileiro, com direito a trompete simulado pelo baixista, para dar mais dramatismo ao momento. Pelo ar, na "Asa Delta", despedimo-nos pela 1ª vez da banda, que ainda teve espaço para uma mini jam antes da paragem pré-encore.style: normal;">De regresso ao palco pela derradeira vez, Fred, ao estilo Stomp, pede a ajuda do público para dar o ritmo da música que se seguia. Com "Frevo por acaso", o brasileiro oferece o seu ombro amigo àquelas angústias que nos apoquentam, aqui numa versão clássica de final de festa, em crescendo até ao apogeu da despedida. Terminado o concerto, de regresso ao frio húmido e pouco primaveril da noite portuense, contemplamos algumas certezas e percebemos o hype que rodeia este talento ainda em bruto. A segurança da sua actuação, associada à atenção com o público e um alinhamento bem estruturado (a que faltaram mais momentos intensos) são sinais inequívocos de que estamos perante alguém consciente do seu valor mas sem grandes pressas ou pretensões de sucesso massivo. As sementes naturalmente germinarão com trabalho árduo e com as pessoas certas por perto. Cícero Rosa Lins é um talento indiscutível, projectando serenidade e confiança no seu trabalho, algo que naturalmente se reflecte na sua actuação ao vivo sem grande esforço, já que a matéria prima é de qualidade superior.
O nosso desejo é que, depois dele, outros lhe sigam as pisadas e tragam a sua música às salas portuguesas.
Wado, Bruno Souto, Apanhador Só, Nevilton e tantos outros, fica a nossa mensagem para todos vós: somos todos ouvidos.     
Cícero @ Passos Manuel
1 – Fuga nº3 da Rua Nestor
2 – Capim Limão
3 – Vagalumes Cegos
4 – Fuga nº4
5 – João e o pé de feijão
6 – Duas quadras
7 – Ela e a lata
8 – Açucar ou adoçante?
9 – Porta, retrato
10 – Zelo
11 – Tempo de Pipa
12 – Pra animar o bar
13 – Laiá Laiá
14 – Ponto Cego
15 – Pelo Interfone
16 – Asa delta
Encore
17 Frevo por acaso

20 dezembro 2013

Anna Calvi @ Casa da Música - Uma diva para o séc. XXI


Anna Calvi é uma diva. Pequena em tamanho, mesmo com os seus enormes stillettos,vermelho sangue na camisa e nos lábios carnudos, em palco transfigura-se assim que soa a primeira nota. Um voz possante, carregada de dramatismo e vida(s), perfeita para as letras poéticas e confessionais que jorram dos seus discos.
Revelada ao Mundo em 2011, o álbum de estreia homónimo garantiu-lhe reconhecimento imediato, pelo poder que revelava em cada melodia, como se de repente recuassemos a tempos imemoriais em que a globalização era inconcebível e a música era peça fulcral na criação de verdadeira Arte. Ao vivo, se dúvidas houvesse de que estamos perante um talento singular, estas rapidamente se desvanecem.
Acompanhada de um trio de excelentes músicos, que se vão revezando entre teclas, guitarra e baixo, com uma bateria impecável a marcar o seu pulsar, a britânica eleva-se naturalmente, sem a facilidade dos truques das "palminhas" ou de falsas empatias, fabricadas em laboratório para reacções imediatas. A música fala por ela, sem espelhos nem fumos difusos. Com um repertório repartido entre os seus dois registos de estúdio, facilmente descortinamos a qual dos álbuns pertence cada música.
Com "One Breath", Anna dá-se ao luxo de recuperar o fôlego, deixando respirar as letras e jogando com as dinâmicas de "attack & release" com uma mestria renovada, trazendo o silêncio e as mudanças rítmicas perfeitamente ensaiadas para uma actuação sem mácula, que soa natural e fluída como um rio que, inexorável, se encaminha para o mar. Onde "Anna Calvi" era visceral e explosivo, "One Breath" revela- se quase tântrico e lânguido, particularmente ao vivo, onde nos deleitamos com o virtuosismo e talento vocais e instrumentais desta artista única.
O público portuense, estranhamente contido e silencioso, parece respeitar quase religiosamente a dimensão operática do rock que emana do palco, aguardando paciente o termo de cada música para se manifestar nas suas cadeiras. Não estamos decididamente num festival ou num qualquer estádio. Aqui a pirotecnia fica a cargo da pedaleira modesta e do incrível aparelho vocal de Calvi, incapaz de falhar, mesmo quando parece caminhar na corda bamba entre notas impossiveis ao comum dos mortais.
Os singles de apresentação dos seus álbuns abrem com chave de ouro o concerto, com um som magnífico emanando do sistema da Casa da Música e preparando o público para a intensidade que se seguia.
"Sing to Me", uma das mais belas canções de amor de 2013, evoca os fantasmas de Bristol, com os Portishead bem presentes no minimalismo da melodia e nos ecos esvoaçantes dos coros reproduzidos nas teclas. Ao jogo de escondidas que é "Cry", em que somos apanhados desprevenidos com uma explosão de riffs, segue-se uma das mais aguardadas da noite e "First We Kiss" não desaponta. A alegria esfuziante do primeiro beijo roubado transparece ingénua e perfeita como todos os grandes momentos o devem ser.
Com "Carry Me Over", as influências minimalistas presentes em "One Breath" tornam-se incontornáveis, com o vibrafone a tomar o protagonismo, tocando em loop hipnotizante, perante o silêncio quase atónito do público, ansioso pelo ataque da guitarra feroz que chegou em todo o seu esplendor, num momento em que o estúdio ficou a milhas daquele palco.
Só, com um foco sobre si e a sua inseparável Telecaster, Calvi sussurra-nos ao ouvido o hino definitivo da paixão desenfreada. O Boss ficaria orgulhoso de encontrar a sua "Fire" vista do lado feminino: sedutora, intensa e inesquecível.A caminho do inevitável encore, "Desire" e "Love Won't Be Leaving" são meros instrumentos para os solos improvisados surgirem da guitarra, numa torrente que desmente o mito de que não existem boas guitarristas e pretexto para um curto e merecido descanso.
De regresso a um público rendido que aplaude de pé, Anna presenteia-nos com uma viagem ao deserto, a fazer lembrar um Ry Cooder entalado entre Paris e Texas com uma guitarra( sem ) slide, para depois se decidir por Paris, com uma pungente versão da "Jezebel" de Piaf, com tanto de salero como de rock puro em cada acorde.
No final, o mar. " Rider to the Sea" é uma melodia incontornável do alinhamento de Anna Calvi em qualquer canto do Mundo. Masterclass condensada em dois minutos de virtuosismo e contenção, com ela somos bafejados por algo que nos transcende, por muito que a ouçamos uma e outra vez, mas é uma mera introdução para o final apoteótico que foi "Blackout", letra de escuridão e presenças espectrais tornada luz e redenção nos tons garridos que melodicamente transporta. Um simples " goodbye and thank you" bastaram para nos fazer regressar à noite gélida que nos aguardava.
Anna Calvi é uma diva, o que nos tempos de hoje poderia parecer um excesso de linguagem. Felizmente não é o caso. Para além de uma imagem carismática, exsuda originalidade e talento nas suas composições e letras, algo que, nestes tempos em que um "twerking" na altura certa, um bom patrocínio e alguns impropérios na redes sociais garantem um lugar na lista de personalidades do ano, não é despiciendo. Pode parecer cliché, mas hoje ser fiel a si próprio e ter integridade(s) é quase suicídio artístico. É refrescante perceber que ainda há quem se esteja nas tintas para todo este ruído e seja abençoada com a capacidade de partilhar o seu "silêncio" mais íntimo. Essa é a essência de uma verdadeira Diva, hoje, ontem e amanhã.

Anna Calvi @ Casa da Música 16/12/2013:

Suzanne and I 
Eliza 
Suddenly 
Sing to Me 
Cry 
First We Kiss 
I'll Be Your Man 
Piece by Piece 
Carry Me Over 
Fire 
Desire 
Love Won't Be Leaving 

Encore:
Bleed Into Me 
Jezebel 
(Édith Piaf cover)

Encore 2:
Rider to the Sea 
Blackout 

28 março 2013

Uma voz no piano

Tiago Sousa @ Gallery Hostel
Tiago Sousa destaca-se pela linguagem única que imprime ao piano.
Autodidacta, afasta-se do jazz, da música clássica e da música mais ambiental, mantendo-se no entanto equidistante de todas elas, inqualificável no seu estilo e livre, na sua abordagem simples e bela a um instrumento tradicionalmente fechado no seu ecletismo formal e académico.
A sua música é feita unicamente para ser desfrutada com o mesmo prazer com que é criada, esse deleite que é transparente quando o vemos diante dos nossos ouvidos, a criar a cada nova interpretação.
O Gallery Hostel é um local simpático. Para além de bonito e bem decorado, sabe receber os artistas e quem os vem ver e propicia momentos de agradável intimidade entre os fãs e os seus ídolos, como foi o caso deste concerto curto porém marcante.
O piano não era o melhor, mas Tiago fez-nos esquecer esse pequeno detalhe com o ambiente descontraído e intimista que criou na pequena sala onde decorreu o concerto. Tocou temas novos do seu muito aguardado primeiro álbum a solo Samsara (3º álbum da sua discografia, que infelizmente ainda não conseguimos ouvir na íntegra), que complementou com o regresso a algumas melodias mais sonantes do seu anterior Walden Pond´s Monk, baseado no fabuloso "Walden" de Henry David Thoreau.
A evolução no seu estilo é um dos pontos que mais se destacam no que Tiago nos mostrou de Samsara, uma nova desenvoltura no desvelar das melodias e no modo como aborda cada nota, focando-se na repetição de padrões melódicos que desembocam em inesperadas conclusões de uma beleza quase comovente, que, por onde quer que me virasse, desenhava sorrisos involuntários em quem, de repente, se via cúmplice de um momento de partilha irrepetivel.
Tiago Sousa merece uma sala maior e um piano da dimensão do seu talento imenso.
Mas a sua criatividade está por aí, nesses escaparates para onde poucos ainda olham.
Procurem a ave colorida na capa e tragam-no convosco.
Com certeza não se arrependerão.
Fica uma pequena amostra do Samsara.

25 março 2013

Masterclass de hiphop soul



Dois anos depois do seu último concerto no Porto, os Orelha Negra encontraram no seu regresso triunfal à Invicta uma excelente sala totalmente esgotada do Hard Club, que os aguardava ansiosamente em ambiente de celebração. 
Uma hora e meia de concerto soube a pouco para colmatar essa ausência que se tornava já demasiado longa. O quinteto apresentou um alinhamento renovado, juntando a alguns inevitáveis clássicos como "A Cura" ou "M.I.R.I.A.M.", algumas delícias do seu segundo registo como "Bala Cola", "24/7", "Polaroid" e "Viva Ela" (com um trabalho fabuloso do Fred na bateria) e incursões no novo Mixtape II, o álbum fresquinho, já disponível em diversas versões por essa net fora, com reinterpretações de músicas do segundo álbum, acompanhadas por um quem-é-quem dos melhores vocalistas e MCs portugueses da actualidade como Mónica Ferraz, Capicua e Valete ou o americano Amp Fiddler. 
O ambiente electrizante que criam desde a primeira nota é constante e contagiante e a máquina move-se com uma fluídez que não julgavamos possível num colectivo que, nos registos de estúdio, se alimenta vorazmente das sonoridades características do hiphop.
Ao vivo, a banda não necessita de vocalista(s) para injectar alma nas melodias que conhecemos e repetimos incessantemente nos nossos gadgets e o poder da bateria do Fred é o perfeito metrónomo para uma sonoridade surprendentemente orgânica e una, impecavelmente equilibrada entre o scratch de primeira do Cruzfader, os samples e os beats disparados pelo MPC do Sam the Kid, o baixo maravilha do Francisco Rebelo e as teclas talentosas do Diogo Santos, que substituiu na perfeição João Gomes, actualmente em digressão com Ana Moura por esse Mundo.
Sem quaisquer pausas entre as músicas, a experiência torna-se ainda mais intensa e a cumplicidade que se sente nos pequenos esgares e sorrisos entre os cinco transparece na forma aparentemente fácil como parece que assistimos à criação de músicas de raíz, tal é a vitalidade com que nos chegam. O segredo? A capacidade de fundir bom gosto e talento ímpar no uso, em tempo real, dos samples, beats e scratch com um motor soul de alta cilindrada.
Como bónus para as apresentações ao vivo, os Orelha Negra brindam-nos com o que eles singelamente apelidam de medley, em que, com o seu toque de Midas, juntam à festa convidados tão especiais como o "Sure Shot" dos Beastie Boys, "I put a spell on you" do Screming Jay Hawkins, "Yegelle Tezeta" do Mulatu Astatké, "Otis" de Jay-Z com Kanye West ou a mítica "Todos Gordos" dos portuenses Mind da Gap, confirmando apenas o que todos já sabiam: para além de talentosos, trazem na bagagem um repertório que excede em muito o que se poderia esperar de qualquer outro colectivo da mesma área musical.
Os Orelha Negra são únicos em qualquer parte do Mundo e ao vivo superam-se de uma forma incrível.
O Mundo é deles. Basta que o queiram. 

19 março 2013

David Fonseca - 10 anos depois

Foto de Ana Alves Guedes

Falar de David Fonseca, pelo menos para este humilde melómano que vos escreve, é recuar mais de uma década aos tempos em que uma banda ainda desconhecida de Leiria lançou, em 1998, uma cover dos Erasure no éter, ganhando pouco depois o Termómetro Unplugged (quando vencê-lo era realmente relevante e era sinónimo de lançar uma carreira) e pôs o panorama musical português a salivar por mais.
Os tempos eram outros, definitivamente. A internet (ainda) não era raínha e senhora da distribuição da música que se ia fazendo aquém e além-mar e a 1ª arte chegava à maioria dos ouvintes pelos meios mais tradicionais: o belo do empréstimo do amigo ou conhecido com gostos similares, o single que passava na rádio ou o álbum, como um todo conexo que vendia os milhares realmente correspondentes aos metais preciosos que, uns meses após o seu lançamento, recompensavam a criatividade dos seus mentores.
Neste panorama, hoje em dia quase risível de tão obsoleto (apesar de ainda tantos na indústria musical se recusarem a admiti-lo), os Silence 4 triunfaram com as suas canções simples, quase ingénuas, num inglês que soava a melodia do flautista da Hamelin para toda uma geração que ansiava por ouvir as suas angústias, amores e desamores cantados por uma música portuguesa que cada vez mais os esquecia.
Entre os quatro leirienses, desde cedo se destacou o seu carismático líder David Fonseca. Autor de quase todas as letras e algumas das músicas mais sonantes do álbum de estreia "Silence Becomes It" de 1998 (sim, já passaram mesmo 15 anos...), com o seu ar cândido e melancólico, foi durante os 5 curtos anos de duração do projecto Silence 4 o amor platónico de muitas adolescentes imberbes (e de outras já com idade para terem juízo) e o ídolo inconfessavel de muitos potenciais homens de barba rija. Recordes de vendas pulverizados, 6 platinas atingidas, um quarto de milhão de discos vendidos e digressões triunfais que percorreram todo o país, consagraram a banda e o futuro parecia promissor.
Mas como quase tudo o que é bom, depois de mais um álbum de estúdio e de um EP, em 2001 fez-se silêncio entre os 4 leirienses. No entanto, David Fonseca tinha ainda muito mais para dizer e fez da sua carreira a solo o caminho para dar largas à sua prolífica criatividade.
Com um percurso cuidado e inteligente, desde o início manteve-se fiel apenas a si mesmo, com uma linguagem pop dotada de muito mais de universal do que propriamente português. Talvez seja este o segredo para, cinco álbuns e dez anos de carreira depois, ter sido capaz de permanecer consistentemente no topo, quer em vendas, quer em popularidade.
A geração que o ouvia no início, acompanhou a sua evolução como músico e performer e o David cultivou sempre essa relação de proximidade e simpatia com os fãs, quer pela música que foi criando (num crescente de complexidade e criatividade, conseguindo dessa forma adaptar-se às mudanças nas preferências do seu público que ia evoluindo e às tendências da pop), quer pela utilização frequente das redes sociais, como forma de obter reacções em tempo real da multidão de anónimos que o segue e de partilhar conteúdos exclusivos e personalizados.

A noite de 9 de Março no Coliseu do Porto foi de celebração dos 10 anos da sua carreira a solo, por onde passaram quase todos os êxitos essenciais, acompanhados de alguns mimos e surpresas para uma plateia que quase esgotou a mítica sala portuense.
Dez anos antes, à meia noite de 10 de Março de 2003, era lançado em 150 rádios simultanemente o primeiro single do seu primeiro álbum a solo "Someone that cannot love".
O seu álbum duplo "Seasons: Rising Falling" (2012) (cuja ideia inicial era ser quádruplo, um álbum para cada estação do ano), é um díptico que procura retratar a vida durante um ano, com todas as suas cambiantes de clima, disposições e ambiências, servindo de ponto de partida e centro nevrálgico de todo o espectáculo.
Durante mais de 2 horas, assistimos à reprodução dessa panóplia de emoções através do jogo de luzes, com uma paleta de cores correspondendo ao que ia sendo tocado, associada a um alinhamento inteligente e cuidado, capaz de manter o ritmo e expectativa até ao final e superando as expectativas dos fãs mais acérrimos e fiéis.
A meio do espectáculo, David senta-se ao piano e improvisa com o público uma música a que chama de "Coliseu", o mesmo que, mais uma vez, consegue que o acompanhe em uníssono.
Um pouco mais tarde, a banda abandona os instrumentos eléctricos e senta-se em circulo, simulando um ensaio. Daí a nada, entoava-se o hino do Verão passado "We are young" dos Fun, como mera introdução para uma versão completamente "despida" de "What life is for", o single de apresentação do álbum mais recente de David Fonseca, que foi lançado através de uma campanha publicitária de uma operadora de televisão.
Enquanto canta "Stop for a minute", David não resiste a conviver mais de perto com o público e desce à plateia com a sua guitarra, para depois subir à tribuna e surpreender novamente com a sua espontaneidade.
Terminado este período de maior intensidade, cai a cortina negra e David surge em palco vestido de Mr. Scrooge antes de se deitar. Sentado ao piano, a pretexto de uma história que envolve uns telefonemas misteriosos, canta para um auscultador telefónico alterado para microfone uma versão de "I just called to say i love you", para em seguida arrancar com uma excelente revisão do clássico dos Nine Inch Nails "Hurt", que termina já acompanhado por toda a sua banda.
Algumas músicas depois, a vontade dos seus fãs expressa via-Facebook é cumprida e David Fonseca presenteia uma plateia já rendida com uma versão mais pop do hino dos Nirvana "Lithium", devidamente vestido com a sua velha camisa de flanela.
Seguiu-se a grande "80´s", que transforma o Coliseu numa discoteca gigante e o regresso para o encore com "U Know who i am" e o final apoteótico, repleto de papéis prateados e balões, com uma "What life is for" em toda a sua pujança pop.

Terminada a celebração, torna-se fácil perceber como David Fonseca se tornou um artista consensual, com tudo o que de melhor essa palavra pode acarretar. A sua estética vincada, apesar de personalizada, tem, desde o início da sua carreira, uma qualidade superior e um alcance que vai dos 8 aos 80 anos. A multidão que o recebeu de braços abertos e vozes afinadas na Invicta foi o retrato perfeito dessa diversidade geracional mas simultaneamente da comunhão em torno de uma música que se sabe manter sempre viva e relevante, o que, em plena era de massificação de tendências e proliferação de imitações de mau gosto, é um achado inestimável. E é nosso.
Venham mais dez, David.

Alinhamento

1 – Under the Willow 
2 – Armageddon
3 – Our Hearts will beat as one II
4 – A cry 4 love
5 – Where are u?
6 – Someone that cannot love
7 – It means i love you
8 – Silent Void
9 – "Coliseu" (improviso com o público ao piano) / The beating of the drums
10 – Kiss me
11 – All that i wanted
12 – It will pass 
13 – Intro c/ We are young (cover dos Fun) / What life is for (ambas em versão acústica)
14 – Superstars II
15 – Stop 4 a minute 
16 – I just called to say i love you / Hurt
17 – At your door
18 – It feels like something
19 - Lithium
20 - 80´s
Encore
21 – U know who i am
22 – What life is for  

19 novembro 2012

Norberto Livre

Norberto Lobo-Mel Azul (Mbari-2012)
Norberto regressou finalmente.
Um porto de abrigo para estes dias frios e sombrios. E infelizmente não falo apenas do inclemente e surpreendente clima invernal.
Privilégio é poder, no intervalo de horas e na melhor companhia, ouvi-lo ao vivo e comparar a experiência com o registo da sua obra em cd, esse formato cada vez mais obsoleto mas ainda tão prático e precioso, principalmente quando se trata de uma cópia personalizada pelo próprio artista.

A actuação ao vivo foi surpreendente embora sem ser uma surpresa.
Passo a explicar.
O artista cresce perante os nossos olhos e os nossos ouvidos.
As colaborações dos últimos tempos têm enriquecido de forma notável o seu som e este concerto reflecte essa mesma evolução.
As frequentes e emocionantes improvisações para-melodia por onde nos conduziu numa setlist onde predominou a ambiência um pouco mais livre e libertadora de "Mel Azul", baralhou as nossas expectativas de um virtuosismo mais estático que a sua música anterior parece sugerir e deparámos-nos com um Norberto mais senhor do seu som e da sua aura quase mística, xamânica, sempre tímido nos agradecimentos e nas respostas às invectivas de um público rendido e expectante, em contraste com a sua exuberância musical e melódica, como se a melhor forma de o conhecer fosse através da guitarra que empunha e não de viva voz.
Com ele, a voz, a expressividade, o sentido de humor e a persona luminosa ficam entaladas entre as madeiras da guitarra, até que generosamente as liberta, com uma entrega que rasga um inevitável sorriso de felicidade contemplativa de momentos dificilmente repetidos.
Os nomes com que baptiza cada melodia são meros detalhes (a que, não despiciendamente, opta por conferir uma saudável e cómica ironia, numa espécie de "who cares" gritado bem alto), já que, de cada vez que ataca as cordas, ouvimos fado, blues, folk, música indiana, música clássica e sons profundos e inqualificáveis, enquadrados apenas pelo coração, porque a razão inevitavelmente fica arredada desta eucaristia.
As composições foram mero pretexto para um recital de liberdade criativa, onde os hegemónicos mantras sonoros em crescendo e diminuendo, regados com silêncios tensos e libertações catárticas de melodia, garantem inadevertidos arrepios na pele e colocam-nos perante uma experiência única, reavivando memórias de dias melhores em que foram a perfeita banda sonora.
Norberto Lobo, naquela noite fria de 6ª feira, sentiu-se em casa no ambiente intimista do Passos Manuel e esse à-vontade reflectiu-se na sua actuação. Cada vez mais improvisa, entrega-se ao sentimento que cada acorde lhe traz e exprime-o cada vez melhor, transmitindo-o com genuinidade, recusando as facilidades da adequação ou de limites formais e melódicos. A música é o momento em que a toca e é isso que o torna tão único e maravilhoso.
Depois vinham as melodias, em torrente, aos pares e aos trios, sem paragens nem concessões. E nós fomos na viagem. E não queríamos que terminasse.
Obrigado a regressar por 2 vezes, fê-lo renitente e, já cansado, fugiu tranquilo com a sua tambura entoando o "Requiem para as abelhas".
Mas o concerto foi muito mais do que mero "Mel Azul". Já não lhe basta a ele nem a nós.
Vejam com os vossos próprios ouvidos. A agenda dos concertos encontra-se facilmente.
(A pedido da Mbari, retirei o video do concerto no Passos Manuel).

O cd novo "Mel Azul" é uma lufada de ar fresco na curta discografia de Norberto Lobo.
Mantendo aquele registo já familiar a quem o segue desde "Mudar de Bina", ensaia novos caminhos menos convencionais a um guitarrista já de si tão particular.
Os acordes são mais abertos, luminosos e as duas composições do seu irmão, Manuel Lobo, são um feliz acrescento à sua sonoridade, conferindo-lhe uma nova densidade e objectividade quase cinemáticas.
Terminados os quase 30 minutos de "Mel Azul", o reflexo quase imediato é repetir a audição.
Porque a viagem é demasiado curta e passa tão rápido pelos nossos ouvidos que receamos ter escapado algum detalhe precioso. E cada nova audição é uma redescoberta do quanto se esconde nas músicas ínfimas em tamanho mas desmesuradamente superiores ao tempo e espaço que ocupam. E não se separam mais de nós. Trauteamos e assobiamos inadvertidamente "Lúcia Lima", "Rua da Palma Blues" ou "Enzo Fought Back" como se fossem nossas desde sempre. Porque passam a sê-lo a partir daquele momento mágico em que as ouvimos pela primeira vez e nos deixamos deslumbrar pela familiaridade com que nos tocam e se acomodam dentro de nós, como toda a boa música o faz.
Norberto Lobo já faz parte daquela galeria de essenciais de qualquer português que ame a música e o quanto de português encontramos nela, contaminada com o que de melhor esse mundo cada vez mais uno e disperso tem para nos mostrar. Norberto traz tudo isso e tanto mais de si a cada novo disco, o que o torna um acontecimento.
Ele anda por esse país triste e abandonado. Ouçam as histórias que tem para contar. São luminosas e repletas de esperança, daquelas que todo o típico português saudosista e deprimido precisa para tornar os dias mais toleráveis. 
Aqui fica o álbum na íntegra.
Partilhem, divulguem, CELEBREM.